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Relações hidroquímicas e avaliação de entradas antrópicas na qualidade das águas superficiais do Ribeirão Guaçu e afluentes, São Roque, SP

Resumo

São Roque situa-se a 60 km de São Paulo, em uma região composta por serras e morros. A hidrografia do município é composta por bacias tributárias do Rio Tietê. A cidade se desenvolveu às margens dos córregos Aracaí e Carambeí, cujos leitos fluem em margens canalizadas até o deságue no Ribeirão Guaçu. Estes córregos, bem como o Ribeirão do Marmeleiro, encaminham resíduos, detritos e todo o volume de águas pluviais ao Ribeirão Guaçu. Em 2017, foi instalada no município uma estação de tratamento de esgoto visando a melhoria das condições de saneamento na região. Diante disso, este trabalho teve por objetivo avaliar as relações hidroquímicas quanto ao estado de trofia e demais impactos antrópicos na qualidade das águas do Ribeirão Guaçu, São Roque, SP, de modo espacial e temporal, mediante abordagem integrada de multitraçadores ambientais, situando a qualidade da microbacia hidrográfica pré e pós instalação de um sistema de coleta e tratamento de esgoto. Para avaliar a qualidade das águas dos corpos hídricos, foram efetuadas amostragens bimestrais de água superficial, obedecendo às épocas de chuva e de seca. Foram selecionados sete locais estrategicamente escolhidos e georreferenciados. As análises foram realizadas de acordo com os métodos analíticos baseados no Standard Methods for Examination of Water and Wastewater. Foram analisados parâmetros físicos, químicos e microbiológicos, sendo os resultados comparados com os valores permitidos por lei. O IQA foi empregado a fim de se obter um panorama sobre a qualidade hídrica da microbacia em função da sazonalidade e um comparativo entre o período pré e pós-operação da ETE. Os pontos Marmeleiro e Guaçu 4 apresentaram maior influência antrópica. Todos os pontos analisados demonstraram-se comprometidos com contaminantes microbiológicos. Em relação aos físicos e químicos, diversos pontos apresentaram inconformidades.

Introdução

Nas últimas décadas, o crescimento populacional e o consequente aumento nas atividades industriais e agrícolas vêm contribuindo para a degradação das condições ambientais, comprometendo a qualidade das águas superficiais (TIBURTIUS et al., 2004).

A sociedade tem suportado diversas consequências devido ao uso inadequado dos recursos naturais, como a poluição hídrica, acarretando em enfermidades, falta de água, altos custos para tratamento de água e esgoto, entre outros (BRAGA et al., 2005).

O aspecto social da água, recurso indispensável à vida, é um dos vieses estabelecidos no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) de número 6, “assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todas e todos” (ODS, 2015).

Com esse foco, a gestão da água e do saneamento é um tema-chave na agenda do desenvolvimento sustentável no Brasil. A preocupação com a existência de água potável e segura para todos é o centro desses ODS (6.1 e 6.3). Indissociável desta temática é a oferta de saneamento e higiene (6.2), uma vez que a falta destes pode levar à contaminação do solo, de rios, mares e de fontes de água para abastecimento.

Entre os desafios e perspectivas para o alcance das metas do ODS 6 no Brasil, estão o acesso à água potável e ao esgotamento sanitário, a qualidade da água, a proteção e a restauração de ecossistemas, a eficiência do uso da água, a gestão integrada dos recursos hídricos, bem como a participação da sociedade e a necessidade de ampliar o monitoramento da qualidade da água (IPEA, 2018).

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), menos de 40% de um total de 5.570 cidades brasileiras possuem uma politica municipal de saneamento básico.

A legislação ambiental regula o uso racional dos recursos naturais e a preservação da qualidade ambiental (STELLATO, 2018). Os impactos ambientais são definidos pela Resolução CONAMA nº 001, como:

“qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas no meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas, que direta ou indiretamente, afetam: I – a saúde, a segurança e o bem estar da população; II – às atividades sociais e econômicas; III – a biota; IV – as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; V – a qualidade dos recursos ambientais” [art. 1º].

Quanto aos padrões de qualidade da água superficial, estes são estabelecidos pela Resolução CONAMA 357/05 (BRASIL, 2005). Segundo esta resolução, as águas são classificadas em quatro classes, sendo a classe 2 (objeto do estudo) destinadas:

“a) ao abastecimento para consumo humano, após tratamento convencional;
b) à proteção das comunidades aquáticas;
c) à recreação de contato primário, tais como natação, esqui aquático e mergulho, conforme Resolução CONAMA nº 274, de 2000;
d) à irrigação de hortaliças, plantas, frutíferas e de parques, jardins, campos de esporte e lazer, com os quais o público possa vir a ter contato direto; e
e) à aquicultura e à atividade de pesca” (BRASIL, 2015, art. 4º,inciso III).

Quando o esgoto sanitário in natura, mesmo recolhido nas redes coletoras, é lançado sem tratamento nos corpos d’água, dependendo da relação entre as vazões de efluente lançado e do corpo receptor, na maioria das vezes, traz sérios prejuízos à qualidade da água (NUVOLARI, 2003).

O ecossistema de um corpo hídrico permanece em equilíbrio até que ocorra a entrada de uma fonte de poluição (VON SPERLING, 1996). Quando o equilíbrio entre as comunidades aquáticas é afetado, resulta em uma desorganização inicial, seguida por uma tendência posterior à reorganização e reestabelecimento do equilíbrio por meio da autodepuração.

Cenários como a falta de planejamento, a ocupação desordenada do solo, a densa e crescente urbanização e os despejos de efluentes domésticos e industriais geram impactos pontuais e difusos nos rios que drenam a área urbana. Esses cenários estão sendo intensificados nos municípios paulistas em expansão, necessitando de uma abordagem integrada para os estudos nessas microbacias hidrográficas. Logo, para avaliar a alteração da qualidade destas águas é necessária a utilização de uma das etapas da avaliação de impactos ambientais, denominada de monitoramento (SÁNCHEZ, 2008).

A cidade de São Roque situa-se a aproximadamente 60 km de São Paulo e desenvolveu-se numa região composta por serras e morros, sendo um município conhecido por sua riqueza natural (MORAIS et al., 2015). O município destaca-se por seu desenvolvimento econômico relacionado ao cultivo de alcachofras e uvas viníferas, e os interesses turísticos para esportes de aventura.

A hidrografia da região de São Roque é composta pelas bacias situadas na porção central e ao norte da estância como tributárias do Rio Tietê – correm no sentido sul-norte; na região noroeste, a bacia do Ribeirão Mombaça ou Guaçu; à região nordeste, a bacia do Ribeirão do Colégio; e, ao sul do município, a bacia do Rio Sorocamirim, que corre no sentido leste-oeste e é a divisa entre as cidades de São Roque e Ibiúna. A bacia do Rio Sorocamirim, compartilhada pelos municípios vizinhos, é a principal fonte de abastecimento de água potável de São Roque e Ibiúna (ESTÂNCIA TURÍSTICA DE SÃO ROQUE, 2006).

Inserida em uma área de relevo movimentado, São Roque se desenvolveu às margens dos córregos Aracaí e Carambeí, cujos leitos fluem em margens canalizadas até o deságue no Ribeirão Guaçu.

O córrego Carambeí é formado por nascentes que se originam na região dos bairros Vinhedo, Canguera e Carmo. As nascentes do córrego Aracaí são formadas na região dos bairros Ponte Lavrada, Mailasqui e Alto da Serra. Ambos são utilizados para abastecimento agropecuário e como destino final de esgoto doméstico.

O Ribeirão Guaçu, que recebe este nome a partir da confluência dos córregos Aracaí e Carambeí, exatamente no cruzamento das avenidas Antonino Dias Bastos e John Kennedy, na região central de São Roque, também recebe águas do Ribeirão do Marmeleiro.

No processo de canalização todas as características dos rios e córregos são alteradas, com seus leitos retificados, ausência de mata ciliar e entorno impermeabilizado. Os córregos Aracaí, Carambeí e Marmeleiro encaminham, além dos vários tipos de resíduos e detritos, todo volume de águas pluviais ao Ribeirão Guaçu.

Em agosto de 2017, foi instalada, pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), no município uma estação de tratamento de esgoto (ETE) visando a melhoria das condições de saneamento na região.

O Governo Estadual de São Paulo, por meio do Decreto nº 8.468/76, classifica as águas interiores do Estado em função de seus fins e qualidade. Cada classe é estabelecida por um padrão de qualidade, determinando limites restritivos de alguns parâmetros que podem ser verificados no corpo d’água.

Assim, de acordo com a legislação estadual (SÃO PAULO, 1976), o corpo hídrico em estudo enquadra-se na classe 2, no qual não podem ser lançadas efluentes, mesmo que tratados, que prejudiquem a qualidade pela alteração de alguns valores e parâmetros, como oxigênio dissolvido (OD) não inferior a 5 mg.L-1.

Segundo SANTOS et al. (2016), a análise de alguns parâmetros, como pH, temperatura, OD, demanda bioquímica de oxigênio (DBO), entre outros, contribuem para o sucesso do estudo de qualidade de águas.

O projeto foi desenvolvido em parceria entre o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN); Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo – campus São Roque (IFSP/SRQ); e, Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (EPUSP). Estas parcerias contribuíram para a realização dos estudos laboratoriais e de campo.

Autor: Eddy Bruno dos Santos.