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Mudanças climáticas pressionam “inflação verde”; entenda os efeitos para o Brasil

Para especialistas, fenômeno tem atingido principalmente o setor de energia, e não deve acabar tão cedo. O combate às mudanças climáticas tem ganhado cada vez mais força e urgência, conforme elas se intensificam e resultam em fenômenos com efeitos negativos para a economia e sociedade como um todo. Esse cenário tem gerado um novo fenômeno, a chamada inflação verde.

Como o nome sugere, esse tipo de inflação está ligada às medidas que têm sido tomadas por governos de modo a descarbonizar a economia. Uma das áreas mais importantes nesse processo é a de energia, e por isso ela tem sido uma das mais impactadas pela inflação verde

Imagem ilustrativa

Entretanto, conforme a descarbonização se intensifica, outros setores devem ser atingidos. O próprio Brasil não deve conseguir se esquivar desse tipo de alta de preços, por mais que tenha uma matriz elétrica bem mais limpa que a média mundial.

O que é a inflação verde?

Otaviano Canuto, coordenador do Centro para Macroeconomia e Desenvolvimento, afirma que, antes de entender o que é inflação verde, é importante lembrar que nenhuma alta de preços ligada a esse fenômeno chega ao mesmo nível do impacto econômico projetado se nada for feito para lutar contra as mudanças climáticas.

Ou seja, por mais que esse fenômeno afete negativamente as economias, ele acabou sendo inevitável, ainda mais devido à demora dos países para iniciar a descarbonização de suas economias e a transição energética, exigindo que esses processos ocorram mais rapidamente agora.

Gesner Oliveira, professor da FGV, define a inflação verde como “uma pressão persistente de aumento de preços derivada da mudança nos preços relativos associados à transição energética, para uma descarbonização da economia”.

Segundo Canuto, existem três áreas principais na economia hoje que devem ser impactadas pela inflação verde.

A primeira está ligada à precificação ou taxação de produtos e empresas pelo carbono emitido em seus processos.

Enquanto as empresas não conseguirem descarbonizar, a tendência é que repassem, em algum nível, os custos a mais com essas taxas aos consumidores, por mais que elas sirvam para incentivar o processo.

Em segundo lugar, há a área de minerais. A tendência, afirma Canuto, é de ocorrer um choque de alta de preços de metais com uso intensivo para armazenamento e produção na cadeia de fontes renováveis.

“Baterias, armazenamento, gera uma demanda enorme, e as próprias fontes renováveis demandam as mesmas matérias-primas, que são materiais de painéis, turbinas. Isso deve atingir principalmente lítio, cobalto, níquel e cobre”, diz.

Como a oferta de minerais demora para subir, ela não reagirá rapidamente ao aumento de demanda, e os preços devem subir no curto prazo, assim como os de equipamentos de energias renováveis.

“É um novo superciclo de preços. Encarece energia eólica e solar, além de carros elétricos”.

Oliveira afirma que, no caso dos combustíveis fósseis, a tendência é de dois movimentos. Primeiro, a queda nos investimentos, inclusive para encontrar novas áreas de exploração, deve se manter, com isso, há uma queda na oferta, o que deve levar a uma alta nos preços.

“O preço dos fósseis tende a subir porque vão investir e explorar menos, e o preço das renováveis também tende a subir, porque a demanda cresce muito. Com isso, o preço da energia sobe, e isso se dissemina na economia”, diz.

E a energia a terceira área afetada pela inflação verde. Adriano Pires, sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), afirma que é nela que o fenômeno mais tem ocorrido e se mostrado ao público.

“A transição da lenha para o carvão, aí carvão para o petróleo, eram transições determinadas por questões econômicas. A transição agora é apoiada no fator ambiental, e não devemos ter fontes monopolistas como o carvão e o petróleo, serão matrizes diversificadas”, diz.

Porém, como as renováveis hoje ainda não conseguem atender toda a demanda global, a tendência é que os preços subam, incluindo as contas de luz.

Para Canuto, “mesmo com avanços tecnológicos nas renováveis, ainda há evidentemente um diferencial de custos em relação às fósseis, então a mudança implica, até que o diferencial de custos caia, em um diferencial de custos. Na literatura se chama de prêmio verde, um custo adicional”.


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Inflação verde em 2021

A discussão em torno da inflação verde ganhou força em 2021, exatamente porque, para alguns estudiosos, parte da inflação global observada no ano passado está ligada ao processo de transição energética dos países.

“A gente viu que no ano passado, com a pandemia, aumentou a demonização de fontes fósseis. Em 2021, com a economia voltando a crescer, se verificou que não tinha energia renovável suficiente para sustentar o crescimento econômico, e aí os preços da energia dispararam”, diz Pires.

Gesner Oliveira afirma, porém, que em 2021 as razões para a alta de preços foram mais conjunturais – como falta de chuvas no Brasil e de ventos na Europa afetando renováveis – do que uma pressão persistente ligada a essa inflação.

Mas há um país que parece ter sido diretamente afetado pela inflação verde, a China.

“A China tem um desafio muito maior que o Brasil, porque a transição energética é mais difícil. É um país com matriz muito mais suja, dependente de combustíveis fósseis, e do pior dele, o carvão, então a transição é mais cara”, afirma.

O país estabeleceu uma série de restrições ao carvão, mas, conforme a atividade retomou, as outras fontes de energia não atenderam à demanda. O resultado foi uma alta na conta de luz, que atingiu outros setores e fez a inflação ao produtor ter forte alta, e a ocorrência de blackouts e racionamento de energia no país.

Nesse cenário, a China foi obrigada a temporariamente suspender algumas restrições e retomar o uso do carvão.

Pires avalia que a transição energética nos países está sendo feita “rápido demais. Ela se faz em décadas, não em anos. Hoje estamos vendo que a energia é uma das coisas que mais pressiona a inflação, petróleo subiu, gás natural também, e a tendência para 2022 é a mesma, porque parou de investir, e aí a oferta não aumenta”.

“Não dá para fazer transição energética com energia cara, porque promove inflação, reduz crescimento econômico, e as pessoas perdem qualidade de vida, em especial os de renda mais baixa”, afirma.

Efeitos para o Brasil

Otaviano Canuto afirma que, no caso do Brasil, um primeiro tipo de consequência da inflação verde é a taxação de produtos ligados ao desmatamento por mercados importantes, como o da Europa.

A tendência também é que, se os custos de energia aumentem em outros países, isso se reflita no preço de produtos importados, gerando algum nível de pressão inflacionária. Mesmo assim, o grau desse impacto depende de fatores domésticos, em especial o câmbio e os que ajudam o dólar a subir ou descer.

Uma vantagem do país, porém, é a grande presença de fontes renováveis na matriz elétrica do país, mais de 80% ante uma média de menos de 25% no resto do mundo. Isso significa que o Brasil não precisa passar por uma transição energética e seus custos, mas apenas administrar e equilibrar as fontes em sua matriz.

Oliveira afirma, porém, que é inevitável que a inflação verde chegue aos consumidores de alguma forma.

“De uma maneira geral, quando aumenta o preço da energia, você coloca uma pressão em toda a economia. Todas as cadeias demandam energia, se ela se torna mais cara, você tem uma pressão, as pessoas vão sentir no preço do combustível, como a gente já sentiu, mas não na intensidade de 2021, porque havia fatores mais conjunturais”, diz.

Como combater?

Na visão de Adriano Pires, a perspectiva é de que “a energia nunca vai ser barata, porque cada vez mais a demanda cresce, e à frente da oferta. A transição acelerada intensifica ainda mais, se demoniza os fósseis, reduz a oferta, e os preços explodem. O mundo tem que entender que energia não vai ser barata, e tem que saber consumir, dar um uso e produções eficientes”.

Ele espera que uma tendência que deve ganhar força a nível global é o de diversificar mais as matrizes elétrica e energética com fontes limpas e renováveis, mas em um processo que não deve ser tão rápido quanto muitos esperam, para reduzir as pressões inflacionárias.

Outra tendência é que o gás natural, um combustível fóssil mais limpo que o carvão e o petróleo, seja usado nessa transição, assim como a energia nuclear, de modo que a oferta de energia não cai ao longo do processo.

Já para Canuto, o combate à inflação verde passa por “aceitar a mudança mas sem deixar a média de preços, o conjunto, entrar em processo de aumento sucessivos. Temos que diferenciar choques de custo, de preço, da inflação, que é mais contaminada”.

“É evidente que, na forma como medimos o PIB, haverá sacrifício no tamanho de áreas consumidoras de energia, a evolução do PIB será menor”, diz. Entretanto, ele afirma que a queda no PIB seria ainda maior com os efeitos das mudanças climáticas.

“A conta pelo verdejamento é mais que compensada pelo que se evita com as mudanças climáticas piorando”, afirma.

Para Gesner Oliveira, a inflação verde ainda é algo contornável. Ele defende que a melhor forma de evitá-la não é com intervenções artificiais, mas sim estimular a regulamentação de um mercado global de créditos de carbono, como forma de incentivar a descarbonização de empresas.

Outra medida importante, segundo Pires, seria conscientizar a população sobre formas mais eficientes de usar a energia, ajudando a reduzir a demanda atual que está ligada ao fenômeno de alta de preços.

“A grande falha dos governos no mundo é que eles não incentivam políticas de redução de demanda. Não é piorar a qualidade de vida, é consumir de maneira mais eficiente, inteligente. O foco na demanda ainda é pequeno, deveríamos ter programas, até educacionais”, diz.

Já segundo Canuto, o combate à inflação verde passa por “aceitar a mudança mas sem deixar a média de preços, o conjunto, entrar em processo de aumento sucessivos. Temos que diferenciar choques de custo, de preço, da inflação, que é mais contaminada”.

“É evidente que, na forma como medimos o PIB, haverá sacrifício no tamanho de áreas consumidoras de energia. A evolução do PIB será menor”, diz.

Entretanto, ele afirma que a queda no PIB seria ainda maior com os efeitos das mudanças climáticas.

“A conta pelo verdejamento é mais que compensada pelo que se evita com as mudanças climáticas piorando”, afirma.

Fonte: CNN


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