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Toxicidade do lodo gerado pelo tratamento biológico da água de produção, no terminal marítimo Almirante Barroso, município de São Sebastião, SP

Resumo

A exploração dos campos produtores de petróleo tem como característica a extração de uma parcela de água misturada ao óleo. Esta água deve ser separada do petróleo antes do processamento pelas refinarias, assim, originando um resíduo conhecido como Água de Produção (AP). Os sistemas projetados para o tratamento da AP empregam diferentes métodos, visando atingir maior eficiência na separação dos contaminantes da água. Entretanto, os processos de tratamento geram subprodutos que necessitam de posterior manuseio ou descarte. O presente trabalho tem como objetivo avaliar a toxicidade do produto de solubilização do lodo gerado pelo tratamento da AP em reatores aeróbios, proveniente da estação piloto de tratamento do efluente do Terminal Marítimo Almirante Barroso. Foram testadas as espécies: Barabarea verna Mill., Brassica oleracea L., Cucumis sativus L. e Eruca sativa Mill., quanto à porcentagem de germinação, velocidade média de germinação e inibição ao crescimento da raiz e hipocótilo. Os resultados indicam maior sensibilidade da germinação de B. verna ao extrato solubilizado, as demais espécies apresentaram concentração crítica para a germinação entorno de 25% do extrato solubilizado. A inibição ao crescimento da raiz e hipocótilo indica maior resistência das espécies E. sativa e B. oleracea, a concentração de inibição (CI50) para essas espécies foi respectivamente de 23,61% e 16,64% para a raiz, para o hipocótilo a CI50 foi em torno de 18% para as duas espécies.

Introdução

As atividades envolvidas na cadeia produtiva do petróleo desde sua extração, armazenamento, transporte e processamento para a produção de derivados, são responsáveis pela geração de diferentes tipos de resíduos. Estes são originários das impurezas presentes na composição natural do óleo ou provenientes de seu processamento (REBHUN; GALIL, 1994). Entre os resíduos gerados destaca-se, particularmente pelo volume envolvido, a água de produção. Esta pode ser definida como a parcela de água que se separa do óleo durante o armazenamento, composta primariamente pela água de formação (naturalmente presente na formação geológica onde se realiza a prospecção do petróleo) e água de injeção, quando processos de recuperação secundária do petróleo são empregados (HOLDWAY, 2002; HAYES; ARTHUR, 2004).

Além dos compostos lixiviados das rochas reservatório, naturalmente presentes na água de formação, uma grande variedade de produtos químicos é adicionada durante o processamento do petróleo. Estes aditivos químicos são empregados para resolver ou prevenir problemas operacionais (BURNS et al., 1999). A toxicidade aguda destes compostos químicos contribui para a toxicidade geral da Água de Produção (HOLDWAY, 2002).

A maior parte das reservas brasileiras de petróleo encontra-se na Bacia de Campos, na margem continental dos Estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo. A localização dos reservatórios em grandes profundidades (lâmina d’água superior a 2.000 m), contribui com o volume de água extraída junto ao petróleo, devido à elevada pressão e percolação da água do mar através do meio sedimentar (CASSELLA et al., 2005).

O Terminal Marítimo de São Sebastião (TEBAR) é responsável pelo escoamento de aproximadamente 60% da produção nacional de petróleo para as refinarias localizadas no Estado de São Paulo. O óleo cru recebido pelo terminal é armazenado em tanques onde ocorre a separação óleo/água. A geração mensal de Água de Produção no TEBAR é entorno de 15.000 m3 .

Os sistemas para o tratamento deste efluente são projetados com a combinação de diferentes metodologias de tratamento, visando atingir maior eficiência na separação e degradação dos contaminantes da água. Entretanto, todos os processos com potencial aplicação no tratamento da Água de Produção geram subprodutos que necessitam de posterior processamento e descarte, de acordo com critérios de proteção ambiental e saúde pública.

O impacto ambiental provocado pelo descarte da água produzida, geralmente, é avaliado pela toxicidade dos constituintes e pela quantidade de compostos orgânicos e inorgânicos presentes. Estes contaminantes podem causar diferentes efeitos sobre o ambiente. Acredita-se que os efeitos mais nocivos são aqueles relacionados aos compostos que permanecem em solução após o descarte da água produzida (OLIVEIRA; OLIVEIRA, 2000).

Os organismos vivos incorporam tanto os efeitos positivos quanto negativos dos impactos químicos e condições ambientais vivenciadas durante seu desenvolvimento, fornecendo uma medida mais direta da toxicidade do que análises químicas isoladas (KEDDY et al., 1995). Desta forma, os testes de toxicidade representam uma ferramenta para o estudo dos efeitos de agentes tóxicos sobre organismos vivos, fundamentando-se no princípio da resposta dos organismos ser proporcional à dose do tóxico a que foram submetidos (JARDIM, 2004).

Durante os estágios iniciais de desenvolvimento, as sementes são mais sensíveis ao estresse ambiental. Assim, os efeitos de agentes tóxicos podem ser monitorados por meio de endpoints como sobrevivência, germinação e estágios iniciais de desenvolvimento (BARBERO et al., 2001).

Os testes de toxicidade baseados na germinação de sementes e crescimento radicular têm sido propostos por diversas agencias governamentais, como parte da avaliação do potencial de contaminação de resíduos e efluentes dispostos no ambiente (OECD, 1984; USEPA, 1996).

O presente trabalho tem como objetivo avaliar o efeito tóxico da disposição do lodo gerado pela etapa de tratamento biológico da Água de Produção, proveniente de uma Estação Piloto de Tratamento de Efluentes (ETE piloto) instalada no TEBAR. A estação conta com três reatores biológicos aeróbios com biomassa em suspensão, operando em sistema de batelada seqüencial, delineados para a nitrificação/ desnitrificação da amônia. A produção de lodo é estimada entorno de 120 kg/h, retirado dos reatores com 4% de sólidos e, após processo de secagem, espera-se obter teor de sólidos em torno de 80%.

Os ensaios de toxicidade foram realizados a partir da solubilização do lodo desidratado. O efeito de concentrações crescentes do extrato de solubilização do lodo, sobre a germinação e desenvolvimento inicial de plântulas de Barbarea verna Mill. (Agrião do seco), Brassica oleracea L. (Couve manteiga), Cucumis sativus L. (Pepino caipira) e Eruca sativa Mill. (Rúcula), foi avaliado como parte dos estudos sobre a disposição final deste resíduo e são apresentados neste trabalho.

Autores: R.C. Guerra e D.F. Angelis.

 

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