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Reúso de efluentes domésticos tratados e riscos microbiológicos associados

Resumo

O reúso de água, para finalidades não potáveis é uma das alternativas apresentadas pelos especialistas para minimizar a escassez de água, entretanto, deve-se levar em consideração aspectos da saúde pública, em que os padrões de qualidade da água para reúso são de suma importância. A Avaliação Quantitativa de Riscos Microbiológicos (AQRM) é uma ferramenta muito útil para estabelecer padrões de qualidade de águas de reúso. Este trabalho teve como objetivo avaliar os riscos microbiológicos decorrentes do reúso de efluentes de uma ETE (Estação de Tratamento de Efluentes), tratando esgoto doméstico. Foi utilizada a ferramenta (AQRM), relativa à E. coli, para estimar o risco quantitativo de infecção quando do reúso dos efluentes tratados, por finalidade de reúso, com base no conceito de risco aceitável da Organização Mundial da Saúde (OMS). Foram avaliados dados secundários de dois efluentes (1A e 1B), tratados em reator UASB (Upflow Anaerobic Sludge Blanket) seguido de Lagoas Facultativas em Série (1 e 2) e depois de Filtro de Areia. Além dessas etapas, o efluente 1B passou por processo de cloração (Sundefeld Junior, 2012). Os resultados indicaram que a AQRM demonstrou ser de grande importância para a avaliação do potencial de reúso de efluentes com diferentes características. A etapa de desinfecção ampliou as possibilidades de reúso do efluente, devendo ser realizada, sempre que possível.

Introdução

No século XX, o consumo de água aumentou em seis vezes, devido ao crescimento populacional, industrial e da agricultura (Rijsberman, 2006), desde então a falta de manejo adequado e uso sustentável dos recursos hídricos contribuem para sua escassez no mundo.

O abastecimento urbano é o segundo maior uso da água no País, depois da agricultura, respondendo por 24,3% da água retirada nas bacias hidrográficas em 2019, e acarreta forte pressão sobre os sistemas produtores de água. O índice de cobertura das redes urbanas de abastecimento é de 92,9% da população das cidades, entretanto, as perdas são muito elevadas, e se aproximam de 40 % (ANA, 2020).

Diante da má gestão e negligência em relação à preservação da água, uma alternativa potencial e viável para conservar esse recurso natural é o uso de fontes alternativas e de estratégias de uso racional de água, uma forma de amenizar os problemas de disponibilidade de água potável e diminuir a sua demanda

Dentre estas estratégias pode-se citar o reúso de efluentes domésticos tratados, tendo em vista que são produzidos de 100 – 160 litros de esgoto doméstico por pessoa, diariamente (ABNT, 1993), uma ótima opção para minimizar o desperdício de água potável em fins não potáveis.

As modalidades de reúso envolvem uma grande variedade de aplicações não potáveis, dentre elas: irrigação de campos de esporte, parques, jardins, cemitérios, canteiros de rodovias; usos ornamentais e paisagísticos; descarga de toaletes, combate a incêndios; lavagem de veículos, limpeza de ruas; desobstrução de redes de esgotos e de drenagem pluvial; usos na construção dentre outros (Brega Filho; Mancuso, 2003).

Existem muitas diretrizes para reutilização dessas águas mesmo em atividades não potáveis, haja vista os riscos ambientais e à saúde humana devido à possibilidade de presença de metais pesados, compostos orgânicos, e, principalmente, microrganismos patogênicos relacionados à contaminação com fezes (Marques; Ide; Paulo, 2018).

A maioria dos patógenos encontrados em águas residuais não tratadas habitam o trato intestinal, onde podem causar doenças, e podem aparecer nas águas de reúso, tais como: vírus, bactérias, protozoários e helmintos (Metcalf & Eddy, 2003).

Charles Haas, em 1983, deu início à abordagem quantitativa de riscos microbiológicos (AQRM) associados ao consumo de água potável, com base em modelos dose-resposta. Ele examinou modelos matemáticos que melhor estimassem a probabilidade de infecção a partir de bancos de dados existentes de experimentos de exposição humana a microrganismos patogênicos. Em seus estudos, descobriu que para vírus o modelo Beta-Poisson foi o que melhor descreveu a probabilidade para estimar o risco de infecção, doença clínica e mortalidade em níveis hipotéticos de vírus na água potável, calculando os riscos anuais e ao longo da vida (Haas; Eisenberg, 2001). Outros estudos se sucederam e assim a AQRM tornou-se um dos métodos imprescindíveis para identificar os riscos de infecção que devem ser considerados ao se propor normas e regulamentos que estabeleçam valores máximos permitidos (VMP) para os diferentes microrganismos presentes em água potável e em águas de reúso para fins não potáveis.

Esse trabalho teve como objetivos: utilizar a ferramenta AQRM relativa à E. coli, para estimar o risco quantitativo de infecção quando do reúso dos efluentes tratados, por finalidade de reúso; indicar os Valores Máximos Permitidos de E. coli nos efluentes em função da finalidade de reúso e com base no conceito da OMS de risco aceitável para doenças diarreicas (10-3 pppa); e avaliar a necessidade de tratamento adicional dos efluentes.

Autores: Ivete Vasconcelos Lopes Ferreira; Layane Vitória de Oliveira Silva e Emanuelle Santos Barros.

 

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