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De que maneira a mudança climática se conecta com inundações mais recorrentes? Especialistas explicam

De que maneira a mudança climática se conecta com inundações mais recorrentes? Especialistas explicam

Mudança climática

A maior ocorrência de eventos climáticos extremos comprovam como o clima mais quente pode agravar as inundações.

Registros de enchentes massivas têm se multiplicado mundo afora nos últimos tempos. Um dos mais recentes ocorreu na cidade de Bahía Blanca, na Argentina, localizada a cerca de 650 quilômetros da capital, Buenos Aires. No último dia 7 de março de 2025, o lugar foi mergulhado em uma inundação histórica que varreu tudo em seu caminho, deixando ao menos 16 pessoas mortas e uma vasta destruição.

Este desastre natural relembra o ocorrido no Brasil, entre abril e maio de 2024, quando tempestades deixaram 478 cidades do Rio Grande do Sul debaixo d’água e afetaram quase milhões de pessoas. Ainda no mesmo ano, a região de Valência, na Espanha, foi atingida por chuvas torrenciais resultado de um fenômeno meteorológico chamado Dana ou Gota Fria (espécies de trombas d’água formadas por uma corrente de ventos polares muito intensos). Ele deixou um rastro de mais de 200 mortos em outubro passado, além de incontáveis danos estruturais e no meio ambiente em decorrência do volume e da força da água.

Os três casos recentes de enormes inundações mostram que este acontecimento parece estar aumentando em todo o mundo, com efeitos cada vez mais devastadores. Paralelamente a eles, também têm se intensificado as secas, os incêndios florestais, a ocorrência de furacões e outros eventos climáticos extremos.

Mas como tudo isso está relacionado à mudança climática causada pelos humanos? National Geographic reuniu informações científicas sobre o assunto para entender como o planeta está se encaminhando para um futuro de enchentes e como esse cenário poderia ser enfrentado.

As mudanças climáticas influenciam as enchentes?

Em um relatório sobre o clima publicado pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), das Nações Unidas, em 2021, os especialistas foram diretos em afirmar que “as mudanças climáticas já estão alterando a localização, a frequência e a gravidade das inundações”.

Como explica o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), as inundações extremas podem ser desencadeadas por chuvas fortes, mais duradouras ou repetidas, quando não por uma combinação desses três fatores. E em um cenário de mudança climática, esses pontos podem ser exacerbados.

Temperaturas mais quentes levam a mais umidade e mais chuvas

De acordo com o relatório do IPCC, o aumento do nível do mar causado pelo degelo, que decorre das temperaturas mais altas, pode levar a inundações costeiras. E isso tem o potencial de se tornar ainda pior quando acompanhado de chuvas fortes.

Por sua vez, as temperaturas globais mais quentes estão correlacionadas com chuvas mais intensas e sustentadas, que se configuram na principal causa de inundações, por causarem mais umidade. “O ar próximo à superfície da Terra pode transportar cerca de 7% mais água em sua fase gasosa (o vapor) para cada 1°C de aquecimento”.

À medida que o planeta se aquece, espera-se uma precipitação mais intensa, afirma o IPCC. No entanto, isso nem sempre significa mais enchentes, pois os efeitos também dependem de outras variáveis, como o tipo de bacia hidrográfica, a paisagem da superfície, a extensão e a duração da precipitação e o grau de umidade do solo antes do evento da chuva.

Por exemplo, enquanto algumas regiões sofrerão um ressecamento do solo, o que pode tornar menos provável a ocorrência de inundações decorrentes de uma chuva, outras áreas podem sofrer com tempestades mais intensas, porém menos frequentes, que endurecem o solo, reduzindo sua capacidade de absorção de água.

Uma atividade humana que também contribui para a mudança climática e influencia os efeitos das chuvas é o desmatamento, seja para agricultura ou urbanização. Ele leva a mudanças no manejo da terra e “pode fazer com que a água da chuva flua mais rapidamente para os rios ou áreas baixas”.

No caso das áreas frias, o degelo precoce combinado com mais precipitação na forma de chuva pode provocar enchentes e aumentar o fluxo dos rios, continua o documento do IPCC. Ainda assim, “a redução da cobertura de neve no inverno pode diminuir a probabilidade de enchentes resultantes da combinação de precipitação e derretimento rápido deste tipo de gelo”, diz a fonte.

Entretanto, o cenário não será o mesmo em todo o mundo. “Embora saibamos que um clima mais quente intensificará as precipitações, espera-se que as tendências locais e regionais variem tanto em direção quanto em magnitude, já que o aquecimento global causa influências múltiplas e, às vezes, conflitantes”, conclui o IPCC,

“Mesmo levando em conta vários fatores, quando os padrões climáticos levarem a inundações em um futuro mais quente, elas serão mais graves”, continua a fonte científica.

Como o mundo deve lidar com um futuro de mais enchentes

De acordo com o PNUMA, governos, empresas e cidadãos de todo o planeta devem se preparar para eventos climáticos cada vez mais extremos.

“A ciência do clima deve ser levada em conta na construção, adaptação e proteção de nossas casas, comunidades, empresas e infraestrutura. Mais urgentemente, as emissões de gases de Efeito Estufa devem ser reduzidas para controlar o aumento da temperatura global pelo maior tempo possível”, enfatiza o órgão internacional.

Além disso, soluções climáticas baseadas na natureza, como o reflorestamento e a restauração do solo, devem ser levadas em conta, conclui o PNUMA.

Fonte: National Geographic


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