BIBLIOTECA

Governança da água novos e velhos desafios (1)

Governança da água: novos e velhos desafios

“Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou”

Governança da água novos e velhos desafios (1)

A famosa frase de Heráclito pode nos ajudar a pensar a questão da governança da água no Brasil, com problemas que permanecem os mesmos, mas em novos contextos políticos.

Em uma recente reestruturação dos ministérios do governo, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), integrante do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos passou a estar vinculada ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, com a finalidade de implementar, em sua esfera de atribuições, a Política Nacional de Recursos Hídricos.

Essa decisão trouxe à tona a complexa questão da gestão da água no país, que enfrenta desafios recorrentes em razão de suas dimensões continentais e das necessidades diversas de suas diferentes regiões e atores.

Como garantir o acesso pleno da população brasileira a água de qualidade e saneamento adequado, além de promover um amplo debate para aprimorar o arcabouço legal e institucional que envolve essa demanda? Como resolver antigos problemas no contexto atual?

Na decisão divulgada em julho, o governo afirmou que o debate vai além da garantia da infraestrutura hídrica. Que é necessário compreender a água como um bem público, cuja disponibilidade em qualidade e quantidade é inseparável da manutenção dos processos ecológicos e de sua interação com a adaptação às mudanças climáticas.

De fato, a gestão das águas é um tema central e abrangente na política ambiental e está intrinsecamente relacionada ao novo marco do saneamento básico no país.

Anunciado em abril, esse marco tem dois objetivos declarados pelo governo: aumentar o investimento privado no setor e fortalecer as empresas públicas, buscando dar resposta ao passivo do saneamento do país com atração de capital para viabilizar a universalização da prestação do serviço de qualidade para toda a população.

Visão integrada

No Brasil, principalmente, este é um tema de grande importância, devido a diversidade de condições de disponibilidade de água, com condições que variam desde semiárido no Nordeste até uma disponibilidade hídrica abundante em outras regiões.

Assim, o equilíbrio entre a disponibilidade em cada território e a demanda pelo uso da água reforça a necessidade de um gerenciamento adequado para garantir o acesso à água potável, a segurança hídrica e a preservação dos ecossistemas aquáticos.

A visão integrada da Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei nº 9.433/1997) com a Lei do Saneamento Básico (Lei nº 11.445/2007) é fundamental para a efetividade da gestão das águas no Brasil e para o enfrentamento de desafios atuais, como os impactos decorrentes das mudanças do clima.

Para gerenciar a demanda, são necessárias medidas que promovam o uso eficiente da água, a implementação de políticas de conservação e reuso, além da conscientização e educação da população sobre a importância da preservação dos recursos hídricos. Sob a ótica da disponibilidade, não apenas a escassez física da água deve ser tratada, mas também as restrições de usos múltiplos decorrentes da poluição dos rios.

O uso da água é essencial para diversos setores, como agricultura, indústria, abastecimento público e geração de energia. Desta forma, o conceito de segurança hídrica materializa a métrica necessária para garantir água em quantidade e qualidade para o desenvolvimento econômico em bases sustentáveis em harmonia com a preservação dos ecossistemas aquáticos e equilíbrio ambiental.

Os ecossistemas aquáticos desempenham um papel fundamental na conservação da biodiversidade e na prestação de serviços ecossistêmicos. Por isso, é preciso conciliar o uso dos recursos hídricos com a preservação desses ecossistemas, por meio da implementação de áreas protegidas, da definição de padrões de qualidade da água e da adoção de práticas sustentáveis.

As mudanças climáticas representam um desafio adicional. O aumento da temperatura, a alteração nos padrões de chuva e a ocorrência de eventos extremos, como secas e enchentes, afetam diretamente a disponibilidade e qualidade da água. Regiões que já enfrentam problemas de escassez hídrica podem se tornar ainda mais vulneráveis.

Adaptação e resiliência

Nesse contexto, é necessário promover a adaptação e a resiliência dos sistemas de gestão de recursos hídricos, levando em consideração as projeções climáticas e os impactos esperados.

Outro desafio para a efetividade da gestão integrada dos recursos hídricos é a necessária integração entre os diferentes setores e atores envolvidos. A falta de coordenação entre as instâncias governamentais e a ausência de políticas de gestão integrada podem levar a decisões fragmentadas e conflitos de interesse.

Além disso, a poluição dos corpos d’água é uma preocupação significativa. A atividade industrial, a agricultura intensiva e o lançamento inadequado de esgotos são fontes de contaminação que comprometem a qualidade da água.

A falta de tratamento adequado de efluentes e a ausência de fiscalização efetiva contribuem para a degradação dos recursos hídricos. Essa questão é especialmente preocupante a conservação dos ecossistemas aquáticos e a garantia de requisitos de qualidade para mananciais de abastecimento público.

Para superar essas adversidades, é necessário promover a articulação e cooperação entre os diferentes setores e atores envolvidos: órgãos governamentais, empresas, organizações da sociedade civil e a população em geral.

É fundamental investir em capacitação e infraestrutura, fortalecer os mecanismos de participação pública e melhorar a fiscalização e o cumprimento da legislação. Ações complexas, mas essenciais para garantir a sustentabilidade dos recursos hídricos e o bem-estar da população.

Regina Esteves é diretora-presidente da Comunitas e Marília Melo é secretária de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais.

Fonte: exame.


LEIA TAMBÉM: OS DESAFIOS E MITOS SOBRE A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA

ÚLTIMOS ARTIGOS:

CATEGORIAS

Confira abaixo os principais artigos da semana

Abastecimento de Água

Análise de Água

Aquecimento global

Bacias Hidrográficas

Biochemie

Biocombustíveis

Bioenergia

Bioquímica

Caldeira

Desmineralização e Dessalinização

Dessalinização

Drenagem Urbana

E-book

Energia

Energias Renováveis

Equipamentos

Hidrografia / Hidrologia

Legislação

Material Hidráulico e Sistemas de Recalque

Meio Ambiente

Membranas Filtrantes

Metodologias de Análises

Microplásticos

Mineração

Mudanças climáticas

Osmose Reversa

Outros

Peneiramento

Projeto e Consultoria

Reciclagem

Recursos Hídricos

Resíduos Industriais

Resíduos Sólidos

Reúso de Água

Reúso de Efluentes

Saneamento

Sustentabilidade

Tecnologia

Tratamento de Água

Tratamento de Águas Residuais Tratamento de águas residuais

Tratamento de Chorume

Tratamento de Efluentes

Tratamento de Esgoto

Tratamento de lixiviado

Zeólitas

ÚLTIMAS NOTÍCIAS