BIBLIOTECA

Avaliação do tratamento de efluente têxtil integrado com drenagem ácida de minas pelo processo foto-Fenton

Resumo

O carreamento para corpos hídricos de efluentes ácidos contendo compostos oxidados de ferro e enxofre, oriundos da mineração de carvão, constitui a drenagem ácida de minas (DAM) que leva à degradação da qualidade da água. Trabalhos recentes mostram possibilidades no tratamento conjunto de DAM com outros efluentes, devido à capacidade coagulante da mistura. O objetivo deste trabalho foi avaliar o tratamento integrado de DAM e efluente têxtil seguido por processo oxidativo avançado foto-Fenton, utilizando o próprio ferro presente na DAM para o processo de oxidação. Verificou-se que a proporção de mistura em que houve efeito de coagulação foi de 13:7 (650 mL de DAM e 350 mL de efluente têxtil). O processo conjugado obteve eficiências de remoção de 99% para cor, 99% para turbidez, 91% para carbono orgânico dissolvido (COD), 95% para compostos aromáticos, 99% para sólidos totais e 83% para sólidos suspensos, mostrando ser efetivo no tratamento do efluente da indústria têxtil.

Introdução

A indústria têxtil representa um setor de importância na economia catarinense e nacional. A produção têxtil em Santa Catarina representa quase 19% da produção industrial no estado, representando 21% do setor têxtil nacional e empregando mais de 170 mil trabalhadores (SINDIVEST, 2012). Destacam-se em nível estadual as regiões do Vale do Itajaí, Norte e Sul catarinense. A produção têxtil apresenta desafios à gestão ambiental, especialmente no que concerne aos seus efluentes, que apresentam cor elevada devido ao processo de tingimento e compostos tóxicos ao homem e ao meio ambiente (NAGELHASSEMER et al., 2012). Segundo Baêta (2012), “estes efluentes caracterizam-se por possuir uma variação de demanda bioquímica de oxigênio (DBO) e demanda química de oxigênio (DQO), e por elevada presença de cor e sólidos totais, sendo que a grande maioria dos sólidos referese aos sólidos dissolvidos”. A complexidade do efluente têxtil é em grande parte devida à alta variedade de corantes e pigmentos usados no processo de tingimento que, segundo Kunz et al. (2002), chegam a 10.000 diferentes compostos, representando um consumo anual de 26.500 toneladas no Brasil. Diversos métodos têm sido usados no tratamento de efluentes têxteis, tais como a floculação físico-química com auxílio de polímeros, carvão ativado e ozonização; entretanto, as moléculas de corantes apresentam tamanho significativamente inferior às demais moléculas inorgânicas, dificultando sua remoção (BUTHELEZI, 2012). O tratamento de efluente têxtil por processos oxidativos avançados (POA) Fenton, foto-Fenton e UV/H2O2 tem se mostrado promissor na remoção de cor e carbono orgânico total (KANG, 2002; NAGEL-HASSEMER, 2006; KOS, 2010).
 
Assim como a atividade têxtil, a mineração de carvão é uma atividade de grande relevância na economia do estado de Santa Catarina, especialmente no sudeste do mesmo, tendo como finalidade principalmente a geração de energia elétrica (25% do total catarinense). O chamado Distrito Carbonífero envolve as bacias hidrográficas dos rios Araranguá, Tubarão e Urussanga, abrangendo os municípios de Orleans, Lauro Müller, Criciúma, Siderópolis, Treviso, Urussanga, Forquilhinha, Içara, Balneário Rincão, Nova Veneza, Morro da Fumaça, Cocal do Sul e Araranguá (NASCIMENTO et al., 2002). O processo de extração e beneficiamento de carvão gera resíduos formados pelas camadas retiradas do solo e por compostos de ferro e enxofre, como a pirita, os siltitos e os folhelhos, presentes nas impurezas retiradas do material. A exposição desses rejeitos ao ar e à chuva promove a oxidação dos minerais ali presentes, que são carregados pela água, atingindo o lençol freático, os rios e os lagos, promovendo o assoreamento dos corpos hídricos e a sua contaminação pelos rejeitos da atividade mineradora (NÚÑEZ-GÓMEZ et al., 2016). Esse efluente, conhecido por “drenagem ácida de minas” (DAM), provoca a acidificação da água e a solubilização de metais pesados presentes em sedimentos, causando impactos negativos à fauna e à flora aquáticas e diminuindo drasticamente a qualidade da água, incluindo efeitos de toxicidade (JENNINGS et al., 2008; SARMIENTO et al., 2016). A DAM pode levar à destruição de ecossistemas e impedir o reúso da água para irrigação ou mesmo para fins não potáveis ou industriais, por conter compostos tóxicos e recalcitrantes em grandes concentrações. A gestão ambiental das minas envolve a drenagem da área de trabalho, evitando que a água contaminada percole pelo solo; entretanto, o controle total é difícil devido não apenas às atividades atuais realizadas nas minas, mas também ao passivo ambiental acumulado. A recuperação de corpos hídricos contaminados pela drenagem ácida de minas é lenta e complexa devido à presença de substâncias recalcitrantes, ou seja, compostos de difícil biodegradação, o que acaba sendo uma barreira para a reutilização dessas águas (EPA, 2003).
Essa complexidade vê-se aumentada quando considerado seu controle espacial e intercepção, uma vez que a DAM e/ou os corpos hídricos impactados por ela podem percorrer grandes extensões, gerando importantes impactos ambientais e sociais em áreas e regiões “não mineradoras” distantes do foco gerador (NÚÑEZ-GÓMEZ et al., 2016).
A grande concentração de ferro na DAM tem motivado pesquisas que visam a aproveitar o potencial coagulante/oxidativo dessas águas em tratamento conjugado com outros tipos de efluentes, como o esgoto sanitário, lixiviado de aterro sanitário e efluentes industriais. Enquanto o alto pH desses efluentes industriais elevaria o pH da mistura, atingindo valores próximos à neutralidade, a DAM possibilitaria a precipitação de poluentes presentes nos efluentes e a sua desinfecção. O ferro presente na DAM e seu baixo pH também podem servir como insumos para a Reação de Fenton, processo em que o íon ferroso promove a formação do radical hidroxila a partir da reação com peróxido de hidrogênio, promovendo a coagulação/oxidação dos poluentes.
Trabalhos realizados na área de tratamento integrado de DAM e outros efluentes são apresentados na Fig. 1.
(…)
Autores: Greice Wolkan; Dámaris Núñez-Gómez; Maria Angeles Lobo-Recio; Flávio Rubens Lapolli e Maria Eliza Nagel Hassemer.
leia-integra

ÚLTIMOS ARTIGOS:

CATEGORIAS

Confira abaixo os principais artigos da semana

Abastecimento de Água

Análise de Água

Aquecimento global

Bacias Hidrográficas

Biochemie

Biocombustíveis

Bioenergia

Bioquímica

Caldeira

Desmineralização e Dessalinização

Dessalinização

Drenagem Urbana

E-book

Energia

Energias Renováveis

Equipamentos

Hidrografia / Hidrologia

Legislação

Material Hidráulico e Sistemas de Recalque

Meio Ambiente

Membranas Filtrantes

Metodologias de Análises

Microplásticos

Mineração

Mudanças climáticas

Osmose Reversa

Outros

Peneiramento

Projeto e Consultoria

Reciclagem

Recursos Hídricos

Resíduos Industriais

Resíduos Sólidos

Reúso de Água

Reúso de Efluentes

Saneamento

Sustentabilidade

Tecnologia

Tratamento de Água

Tratamento de Águas Residuais Tratamento de águas residuais

Tratamento de Chorume

Tratamento de Efluentes

Tratamento de Esgoto

Tratamento de lixiviado

Zeólitas

ÚLTIMAS NOTÍCIAS