BIBLIOTECA

A adição química do sistema agroalimentar (1)

Substância que quebra celulose revoluciona produção de biocombustíveis

Biocombustíveis de segunda geração

Há décadas acompanhamos a promessa dos chamados “biocombustíveis 2.0”, ou biocombustíveis de segunda geração, que poderá ser fabricado a partir de resíduos agroindustriais, como bagaço da cana e palha do milho, de restos de madeira ou mesmo de madeiras cultivadas para esse objetivo – calcula-se que substituir petróleo por madeira pode ser lucrativo econômica e ambientalmente.

O problema é que não é fácil quebrar a celulose, já que este que é o polímero renovável mais abundante do planeta, é extremamente recalcitrante à despolimerização biológica. Embora composta inteiramente por unidades de glicose, a estrutura microfibrilar cristalina da celulose a torna altamente resistente à degradação. Na natureza, sua quebra é lenta e demanda sistemas enzimáticos complexos, que são difíceis de reproduzir sinteticamente.

É por isto que está causando entusiasmo a descoberta feita por uma equipe internacional liderada por pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).

Clelton Santos e seus colegas descobriram na natureza uma enzima que pode literalmente revolucionar o processo de desconstrução da celulose, viabilizando, entre outras aplicações tecnológicas, a produção em larga escala do chamado etanol de segunda geração, derivado de resíduos agroindustriais, como o bagaço da cana e a palha do milho.

A enzima, batizada de CelOCE, a partir da expressão em inglês para “enzima de clivagem oxidativa da celulose”, quebra a celulose por meio de um mecanismo inédito, possibilitando que outras enzimas presentes no coquetel enzimático prossigam o trabalho, convertendo os fragmentos em açúcar. Ela foi encontrada em um filo bacteriano que nunca havia sido estudado.

“Para usar uma comparação, a recalcitrância da estrutura cristalina da celulose decorre como que de um conjunto de cadeados, que as enzimas clássicas não conseguem abrir. A CelOCE abre esses cadeados, permitindo que outras enzimas façam a conversão. Seu papel não é gerar o produto final, mas tornar a celulose acessível. Ocorre uma sinergia, a potencialização da atuação de outras enzimas pela ação da CelOCE,” detalhou o professor Mário Murakami, coordenador do estudo.

Metaloenzimas

A CelOCE reconhece a extremidade da fibra de celulose, instala-se nela e a cliva de forma oxidativa. Com isto, ela perturba a estabilidade da estrutura cristalina da celulose, tornando-a mais acessível para a ação das enzimas clássicas, as hidrolases glicosídicas. Além disso, como a CelOCE é um dímero – composta por duas subunidades idênticas – , enquanto uma subunidade se encontra “sentada” sobre a celulose, a outra fica livre, podendo desempenhar uma atividade secundária de oxidase, gerando o material necessário para a reação biocatalítica.

Em relação à tecnologia mais avançada hoje, baseada na adição de mono-oxigenases ao coquetel enzimático, a nova enzima dobra o rendimento da reação. Isso significa que a CelOCE deverá aumentar expressivamente a eficiência do processo de produção dos biocombustíveis.

A CelOCE é uma metaloenzima, assim classificada porque possui um átomo de cobre embutido em sua estrutura molecular. E é esse átomo de cobre que funciona como o centro catalítico propriamente dito. Ela não foi sintetizada em laboratório, mas descoberta na natureza.

“Modificamos o paradigma de desconstrução da celulose pela via microbiana. Achávamos que as mono-oxigenases eram a única solução redox da natureza para lidar com a recalcitrância da celulose. Mas descobrimos que a natureza havia encontrado também outra estratégia, ainda melhor, baseada em um arcabouço estrutural minimalista que permite seu redesenho para outras aplicações, como a biorremediação ambiental,” afirmou Murakami.

Melhor ainda, a prova de conceito em escala-piloto já foi demonstrada e a enzima recém-descoberta pode ser incorporada imediatamente ao processo produtivo, o que é extremamente relevante para o Brasil, como grande produtor de biocombustíveis, e para o mundo, em um contexto de transição energética urgente em função da crise climática.

O Brasil possui as duas únicas biorrefinarias existentes no mundo capazes de produzir, em escala comercial, biocombustíveis a partir da celulose. A tendência é que essas biorrefinarias se multipliquem e sejam replicadas em outros países.

Fonte: Inovação e Tecnologia


ÚLTIMOS ARTIGOS:

CATEGORIAS

Confira abaixo os principais artigos da semana

Abastecimento de Água

Análise de Água

Aquecimento global

Bacias Hidrográficas

Biochemie

Biocombustíveis

Bioenergia

Bioquímica

Caldeira

Desmineralização e Dessalinização

Dessalinização

Drenagem Urbana

E-book

Energia

Energias Renováveis

Equipamentos

Hidrografia / Hidrologia

Legislação

Material Hidráulico e Sistemas de Recalque

Meio Ambiente

Membranas Filtrantes

Metodologias de Análises

Microplásticos

Mineração

Mudanças climáticas

Osmose Reversa

Outros

Peneiramento

Projeto e Consultoria

Reciclagem

Recursos Hídricos

Resíduos Industriais

Resíduos Sólidos

Reúso de Água

Reúso de Efluentes

Saneamento

Sustentabilidade

Tecnologia

Tratamento de Água

Tratamento de Águas Residuais Tratamento de águas residuais

Tratamento de Chorume

Tratamento de Efluentes

Tratamento de Esgoto

Tratamento de lixiviado

Zeólitas

ÚLTIMAS NOTÍCIAS