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Qualidade da água para o abastecimento público, no distrito de Guatá, município de Lauro Muller, Santa Catarina.

Resumo

O controle e qualidade da água se fazem necessários tendo em vista que o homem tem influência direta nos recursos hídricos, geralmente de forma negativa, causando poluição deste recurso essencial à vida não só do homem, mas de todo organismo vivo. As principais fontes de contaminação são ainda por lançamento de esgoto sem tratamento nos rios, resíduos industriais, defensivos agrícolas, entre outros, além da contaminação do lençol freático. Estes níveis de poluição podem gerar nos organismos aumento da morbidade e no índice de mortalidade principalmente na população mais vulnerável, como crianças e idosos. Este fato ocorreu no município de Lauro Muller no distrito de Guatá que obteve no ano de 1944, maior índice de mortalidade infantil do mundo devido a água contaminada por elementos derivados da extração do carvão sem nenhuma forma de tratamento. Neste sentido o objetivo do estudo foi avaliar as características físico-químicas e microbiológicas através do boletim de qualidade da água para consumo humano do programa VIGIAGUA. Além disso, testar citotoxicidade e genotxicidaade da água do distrito de Guatá, município de Lauro Muller. Desde então as melhorias relacionadas à distribuição e captação de água foram lentas na região e ainda continuam obsoletas. Este fato pode ser observado nas análises cedidas pela vigilância sanitária do município de Lauro Muller, que por meses permanece imprópria ao consumo humano devido à presença de coliformes totais e E.coli nas amostras analisadas. Sendo assim os interferentes a saúde quando detectados devem ser atendidas com maior brevidade possível, das autoridades competentes buscando melhorias nas técnicas utilizadas caso inadequadas e principalmente identificar e eliminar as fontes poluidoras, Hoje existem leis que normatizam a qualidade da água a ser distribuída a populaço que devem obedecer os padrões de potabilidade. Além das técnicas utilizadas convencionalmente nas análises de água contamos com o uso de bioindicadores que respondem a contaminantes nos mais diferentes níveis de organismos, comportamentais a nível celular. Neste estudo a utilização do bioindicador Allium cepa L, demonstra através das análises citotóxicas e genotóxicas não houve poder fitotóxico nas amostras coletadas. No entanto, é importante o monitoramento constante da qualidade da água na região. Necessitando maior investigação e empenho nos estudos sobre este recurso tão importante na qualidade de vida da população.

Introdução

A descoberta de carvão mineral em Lauro Muller faz parte da história e desenvolvimento dessa região, este fato teve inicio em 1841, quando o governo enviou o Dr. Julio Parigot, seu comissionado a região para estudos geológicos. Estes estudos comprovaram a existência de carvão mineral na região; no ano de 1861 o governo celebrou contrato com o Visconde de Barbacena para lavra de carvão mineral, que teve seu inicio prorrogado por várias vezes e somente iniciado em 1880 em pequena escala (LOPES, 2008). A construção da Estrada de Ferro Dona Tereza Cristina, finalizada em setembro de 1884 trouxe a região condições de transportar o carvão explorado na primeira mina de carvão de Santa Catarina, ligando Lauro Muller ao porto de Imbituba. Além disso, trouxe também a vinda de muitas famílias para a região agora dotada de empregos e locomoção, transporte, agricultura familiar. Neste período surgiram os primeiros mineiros e colonização agrícola, o que deu inicio à localidade conhecida por Estação das Minas, hoje Lauro Muller que tem o titulo de Pioneira na Extração do Carvão Mineral (LOPES, 2008). Lauro Muller era um lugar praticante desabitado, foi sendo transformado em um lugar de grande estrutura voltada para extração de carvão, com surgimento e desenvolvimento das vilas operárias na região. Uma destas vilas operárias é a vila de Guatá, que será o local de estudo deste trabalho. Nos relatórios do DNPM – Departamento Nacional de Produção Mineral é possível encontrar descrições sobre a construção dessa vila: Há um projeto de construção de 2 vilas operárias distintas, ligadas entre si por uma larga avenida com 100 casas, cada uma de construção modesta, mas dotadas de todo conforto, inclusive água encanada, iluminação elétrica e fossas sanitárias (RELATÓRIO do DNPM 1940, p.124 apud JUVENCIO ,2008). No auge da exploração carbonífera, na metade do século XIX, no comando da Companhia Nacional de Mineração Carbonífera Barro Branco (CNMCBB) houve na vila de Guatá a construção de uma infraestrutura voltada à exploração de carvão. Esta vila possuía casas para habitação dos funcionários, escola, casas comerciais, igreja, clube de esportes, banda de música, teatro, cinema, clube de baile, além de farmácia (JUVENCIO, 2008). Com a intensa exploração de carvão a céu aberto desde 1942, foram geradas grandes pilhas de rejeitos, as quais eram depositadas pela carbonífera na região, sem haver qualquer preocupação com vegetação os rios e riachos. Essa falta de interesse e descaso, juntamente com as possíveis formas de contaminação que o rejeito do carvão iria gerar, trouxe a população guataense uma série de doenças que não eram tratadas.

Quando se fala da água distribuída para o consumo da população em Lauro Muller, no período da extração do carvão, sempre se refere á água poluída, sem qualquer tipo de tratamento (JUVENCIO, 2008). Na vila do Guatá chegaram a morrer de 2 a 3 crianças em um único dia. Podemos encontrar, como exemplo no livro “Colonos e Mineiros na Grande Orleans” de Dall Alba, a informação de que em 1944 foi divulgado a noticia pela rádio de Moscou, de que a localidade de Guatá tinha o maior índice de mortalidade infantil do mundo (DALL’ALBA, 1986). Como demonstrado também no relato de Teresinha Maria Gonçalves narrado no texto de sua autoria “Memórias do Eldorado do Carvão”, publicado no livro organizado por Carola (2011): A vivência quase diária com a morte fez parte do cotidiano de minha infância, tanto que, muitas vezes, brincávamos fazendo funeral de ratos, quando meu pai os envenenava. Tudo era sujo, preto, cinza… O lixo se acumulava em volta das casas, as pessoas matavam os animais e os dissecavam nos pequenos córregos. Deixavam lá a carcaça e o resto de vísceras para os urubus. O cheiro de enxofre me deixava enjoada. Pés descalços, pegando bicho de pé, piolho e sarna, lá estávamos, as crianças do Guatá, brincando nas lagoas de pirita (GONÇALVES, 2011, p. 141). Os fatos apontam para uma região intensamente explorada, sofrendo com a degradação do meio ambiente e com consequências à saúde da população (JUVENCIO 2008). Em 1972, com financiamento do governo federal foram colocadas novas instalações para captação da água, diretamente da serra, para o consumo da população do Guatá, deixando de ser captada da represa, visto que esta já apresentava sinais de contaminação por metais pesados derivados da extração do carvão. Esta mudança levou a uma redução da mortalidade infantil e melhoria na saúde da população (JUVENCIO, 2008). Nos dias atuais a água distribuída a população, continua vindo da Serra Geral, do mesmo local, construído no ano de 1972, hoje com um novo ponto de coleta de água, visto que somente um ponto não suportava a quantidade utilizada pela população, provocando diariamente a falta de água. Os dois pontos de captação da água se unem após percorrer 6Km em canos de PVC até o reservatório de concreto com a capacidade de 130 m³ de água que abastece a população de Guatá distrito de Lauro Muller, ficando a cargo da prefeitura municipal de Lauro Muller a manutenção e controle da qualidade da água. É de responsabilidade e iniciativa da prefeitura a aplicação de cloro na vazão da água antes de entrar na caixa, porém não há registros de que haja alguma empresa responsável pelo tratamento desta água que fiscalize e controle a eficácia desse processo. Desta forma, a água fornecida a população passa pelo controle da vigilância sanitária do município, que realiza coletas mensais de água, essa coleta é realizada em ponto determinado pela vigilância sanitária do município e posteriormente enviada para análise.

Os resultados destas análises são enviados ao estado, o qual é o responsável pela solicitação através do Boletim da Qualidade da Água para consumo Humano em SC (SUS, 2017). Esta ação cumpre o Decreto Federal 5.440/2005 que estabelece definições e procedimentos sobre o controle de qualidade da água de sistemas de abastecimento e institui mecanismos e instrumentos para divulgação de informação ao consumidor sobre a qualidade da água para consumo (BRASIL, 2005). A água para consumo humano deve atender a critérios rigorosos de qualidade não possuindo elementos nocivos à saúde, como substâncias tóxicas e organismos patogênicos, e nem possuir propriedades organolépticas, como cheiro, sabor e aparência desagradáveis. Sendo assim, uma água para abastecimento público e consumo humano deve atender os padrões de potabilidade definidos pela portaria nº 2.914, de 12 de dezembro de 2011, que dispõe sobre os procedimentos de controle e de vigilância da qualidade da água para consumo humano (BRASIL, 2011). Para evitar contaminações decorrentes da má qualidade da água, são estabelecidos padrões de potabilidade, estes apresentam os Valores Máximos Permissíveis (VPM) com que elementos nocivos ou características desagradáveis podem estar presentes na água, sem que esta se torne imprópria para o consumo. Atualmente, há disponível o programa VIGIAGUA (Vigilância em Saúde Ambiental relacionada à Qualidade da Água para Consumo Humano) tem como objetivo garantir à população o acesso à água de qualidade com padrão de potabilidade estabelecido na legislação vigente, para a promoção da saúde (SANTA CATARINA, 2017).

Para alimentar este programa a vigilância sanitária do município de Lauro Muller faz coletas mensais das águas distribuídas para população do distrito de Guatá a fim de avaliar sua potabilidade. Os resultados nem sempre são satisfatórios, o que trás preocupação, quando comparados aos padrões de potabilidade previstos pela legislação vigente. Além do controle da qualidade da água monitorada pelo programa VIGIGUA, é importante que novas técnicas sejam utilizadas para avaliar a exposição de organismos vivos á água que esta sendo disponibilizada para população. Neste caso, o uso de bioindicadores que são definidos como qualquer resposta a um contaminante ambiental ao nível individual, medidos no organismo ou matriz biológica, podem indicar um desvio do status normal que não pode ser detectado no organismo intacto. Bioindicadores possuem características importantes para avaliar contaminação ambiental. Permitem identificar as interações que ocorrem entre os contaminantes e os organismos vivos e também possibilitam a mensuração dos efeitos sub-letais. O uso de bioindicadores para análise do ambiente aquático pode gerar conhecimentos mais precisos da qualidade da água, uma vez que estabelece os efeitos tóxicos nestes organismos produzidos pela contaminação presente (ARIAS et al, 2007). Plantas superiores como Allium cepa L estão sendo empregados em sistemas como bioindicador para acompanhar a presença de compostos tóxicos em corpos d’água (RODRIGUES, 2016). Realizar testes toxicológicos com este organismo tem várias vantagens, incluindo baixo custo, pequeno volume da amostra necessária para o teste, sensibilidade e reprodutividade, fácil cultivo deste organismo, assim como disponibilidade durante todo ano ( FISKEJO, 1993). O Allium cepa L é utilizada para avaliar danos ao DNA, como anormalidades cromossômicas e distúrbios no ciclo mitótico. Este caráter genotóxico que utiliza o A. cepa L ,é também validado pelo Programa Internacional de Bioensaios Vegetais desde 1997( MA; GRANT; SERRES, 1997). É um teste padrão, caracterizado na avaliação de anormalidades cromossômicas, índice mitótico, formação de micronúcleos e anormalidades nucleares na detecção de contaminantes (FERETTI et al. 2007; BRAGA; LOPES, 2015). Os padrões de potabilidade analisados são realizados por testes microbiológicos e físico-químicos. Com relação as análises microbiológicas, as bactérias do grupo coliformes e. Escherichia coli são analisadas. As bactérias do grupo coliforme são bacilos gram-negativos, em forma de bastonetes, aeróbios ou anaeróbios facultativos e não formam esporos. A razão da escolha desse grupo de bactérias como indicador de contaminação da água deve-se a alguns fatores: estar presentes nas fezes de animais de sangue quente, inclusive os seres humanos, indicando quando presentes na água uma relação direta com o grau de contaminação fecal; e por serem facilmente detectáveis e quantificáveis por técnicas simples e economicamente viáveis; possuírem maior tempo de vida na água que as bactérias patogênicas intestinais; por serem menos exigentes em termos nutricionais; ser incapazes de se multiplicarem no ambiente aquático; e ser mais resistentes à ação dos agentes desinfetantes do que os germes patogênicos (FUNASA, 2006).

Por outro lado a presença da bactéria Escherichia coli na água quando consumida pelo ser humano é a principal causa de gastroenterites agudas e diarréias (BRASIL, 2013). Com relação as análises físico-químicas o cloro é um produto utilizado comumente na desinfecção da água. Por isso uma medida a ser tomada é analisar o cloro residual livre para controlar a dosagem que está sendo aplicada e também para acompanhar sua evolução durante o tratamento (BRASIL, 2013).

Segundo a portaria nº 2914/2011 do Ministério da Saúde é obrigatório em qualquer ponto da rede de distribuição a concentração mínima de cloro residual livre de 0,2 mg/l. Recomenda, ainda, que o teor máximo seja de 2,0 mg/l de cloro residual livre em qualquer ponto do sistema de abastecimento. Os principais produtos utilizados são: hipoclorito de cálcio, cal clorada, hipoclorito de sódio e cloro gasoso (BRASIL, 2011). O termo pH representa a concentração de íons hidrogênio em uma solução. É uma grandeza que varia de 0 a 14 e indica a intensidade da acidez. Na água, este fator é de excepcional importância, principalmente nos processos de tratamento, o pH abaixo de 7 a água é considerada ácida e acima de 7, alcalina, a água com pH 7 é neutra (BRASIL, 2011). A Portaria nº 2914/2011 do Ministério da Saúde recomenda que o pH da água seja mantido na faixa de 6,0 a 9,5 no sistema de distribuição (BRASIL, 2011). A turbidez da água o corre pela presença de materiais sólidos em suspensão, que reduzem a sua transparência podendo ser provocado também presença de algas, plâncton, matéria orgânica e muitas outras substâncias como areia por exemplo, resultantes do processo natural de erosão ou de despejos domésticos e industriais (BRASIL, 2011). A turbidez possui sua importância no processo de tratamento da água quando esta possui turbidez elevada e dependendo de sua natureza, forma flocos pesados e decantam mais rapidamente do que água com baixa turbidez, mas possui desvantagens como no caso da desinfecção que pode ser dificultada pela proteção que pode dar aos micro-organismos no contato direto com os desinfetantes. É um indicador sanitário e padrão de aceitação da água de consumo humano (BRASIL, 2011).

Autor: MARILUCI DE OLIVEIRA RODRIGUES.