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Mudanças climáticas: como os bancos centrais estão enfrentando os riscos ambientais e a transição para uma economia verde?

Resumo

Mudanças climáticas – As mudanças climáticas trazem riscos que ameaçam a economia e a estabilidade do sistema financeiro, impactando, negativamente, na política monetária. Diante desse cenário, os bancos centrais, responsáveis pela estabilidade do sistema financeiro, cada vez mais precisam considerar as mudanças climáticas nos modelos de risco. Sendo assim, o objetivo desse trabalho foi analisar como os bancos centrais têm enfrentado as mudanças climáticas para preservar a estabilidade do sistema financeiro. Esse trabalho dividiu-se em três etapas. Primeiramente, procurou-se entender se é papel dos bancos centrais promover políticas econômicas em favor da sustentabilidade. A literatura ainda tem algumas dúvidas sobre que postura os bancos centrais devem manter diante das mudanças climáticas. Algumas referências ressaltam a importância da neutralidade dos bancos centrais, outras acreditam que uma certa intervenção pode mitigar os riscos climáticos, promover uma transição para uma economia mais verde e, por consequência, preservar o sistema financeiro. Em seguida, pretendeu-se demonstrar quais os prováveis efeitos das mudanças climáticas na economia. Partindo da definição dos conceitos de clima, mudança climática e efeito estufa, foram analisadas as consequências desses fatores na economia, tanto em países desenvolvidos, quanto em países em desenvolvimento. Por fim, pretendeu-se entender como os bancos centrais têm considerado as mudanças climáticas nos seus modelos de risco. Foram analisados o caso brasileiro e três economias de países desenvolvidos, selecionadas a partir de um critério que considera o produto interno bruto (PIB). Percebe-se, neste estudo, que o banco central europeu parece estar em um estágio mais avançado em relação aos outros. A conclusão desses estudos é que as mudanças climáticas impactam no sistema financeiro. Os bancos centrais ainda estão entendendo como enfrentar as mudanças climáticas e desenvolvendo modelos de risco. No entanto, esse não é papel exclusivo deles, é necessária uma ação conjunta com outros órgãos governamentais para conduzir a transição verde.

Introdução

De acordo com os dados do último relatório de agosto 2021 do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), a concentração de gases do efeito estufa (GEE) continuaram a aumentar na atmosfera, atingindo médias anuais de 410 partes por milhão (ppm) para dióxido de carbono (CO2), 1866 ppm para metano (CH4) e 332 ppm para óxido nitroso (N2O) em 2019. Esse incremento de concentração de GEE proporcionou uma degeneração do efeito estufa, com consequente aumento da temperatura. Os GEE contribuíram com um aquecimento de 1,0 graus Celsius (° C) a 2,0 ° C (IPCC, 2021), sendo os principais impulsionadores do aquecimento troposférico desde 1979. É muito provável que a destruição do ozônio estratosférico causada pelo homem, tenha sido o principal impulsionador do resfriamento da estratosfera inferior entre 1979 e meados da década de 1990 (IPCC, 2021).

Esse cenário de aumento da concentração de GEE e consequente elevação da temperatura da Terra acelera as mudanças climáticas, que trazem consequências negativas para o meio ambiente. Atualmente, podemos detectar diversos sintomas de mudanças climáticas no planeta. Suguio (2008) aponta que os Estados Unidos da América do Norte foram atingidos em 2004 por quatro tempestades em cerca de um mês e de 1980 até hoje teriam sido submetidos a um prejuízo de 350 bilhões de dólares. Enquanto isso, no norte da Europa, comenta-se que geleiras da Noruega recuaram 2 quilômetros nos últimos 100 anos e, ao mesmo tempo, presume- se que o degelo tenha se acelerado nessas e em outras geleiras do Círculo Polar Ártico e que ocorreram 30 mil mortes por excesso de calor no verão de 2003. No continente asiático, em 2003, a Índia foi invadida por onda de calor, que matou mais de 1.200 pessoas.

De acordo com Grippa, Schmittmann e Suntheim (2019), embora podemos avaliar os custos imediatos da mudança dos padrões climáticos e dos desastres naturais mais frequentes e intensos, medir os custos econômicos da mudança climática ainda é um trabalho em andamento na literatura. O impacto econômico da mudança climática provavelmente se acelerará, pois, a maioria dos custos potenciais está além do horizonte da análise econômica típica. Sendo assim, o potencial impacto das mudanças climáticas nos obriga a pensar, de forma empírica, nos custos econômicos futuros.

As preocupações com as mudanças climáticas têm sido centrais nas discussões de política econômica nas últimas décadas, com crescente urgência (ILZETZKI; JIA, 2021). Ocorre que as mudanças climáticas não estão afetando apenas os recursos naturais e o meio ambiente, mas também estão produzindo um impacto econômico, correndo o risco, segundo Bolton, Hong, Kacperczyk e Vives (2021), de desestabilizar rapidamente os mercados financeiros. Desastres naturais podem danificar o capital e a terra, aumentando a taxa de depreciação do capital com impactos de longo prazo na renda e na produção (ARNDT; LOEWALD; MAKRELOV, 2020).

Portanto, como bem defendido por Brunnermeier e Landau (2020), o clima deve ser uma parte importante das avaliações de risco financeiro. Os cenários climáticos devem ser conduzidos em paralelo (ou como complementos) aos cenários macroeconômicos, uma vez que o clima tem um impacto óbvio na avaliação dos ativos e passivos de longo prazo. As análises de sensibilidade do clima devem ser conduzidas e atualizadas sistematicamente para as carteiras de seguradoras, investidores institucionais e gestores de ativos.

Todavia, embora os riscos financeiros decorrentes das mudanças climáticas sejam perceptíveis, para Campos (2021) são singulares e totalmente novos. Cada vez mais, haverá necessidade de informações mais precisas dos possíveis impactos que as mudanças climáticas podem ter sobre os ativos físicos e financeiros envolvidos nos investimentos. As decisões econômicas e financeiras de investidores, empresas, governo e outros atores envolvidos no sistema financeiro precisarão de informações consistentes, comparáveis, confiáveis e claras sobre os riscos derivativos dessas alterações. Nesse sentido, para Campos(2021), esses desafios oferecem riscos a estabilidade financeira e econômica para países e governos, pois as empresas e organizações que investem não possuem, em geral, conhecimento adequado a respeito dos impactos, incertezas e riscos climáticos em seus negócios. Como consequência, estas não transmitem todos os riscos a que estão expostas ao setor financeiro, de onde obtêm e serão providos seus recursos para investimento. Sendo assim, dados inadequados e imprecisos sobre tais incertezas e riscos podem levar à precificação incorreta de ativos e alocação incorreta de capital com potenciais danos sobre a estabilidade financeira, uma vez que os mercados podem ficar vulneráveis a correções abruptas (CAMPOS, 2021).

Diante desse cenário, Grippa, Schmittmann e Suntheim (2019) defendem que os bancos centrais, principais responsáveis pela estabilidade do sistema financeiro, reconheçam cada vez mais as implicações das mudanças climáticas para a estabilidade financeira. Campos (2021) reitera que, as mudanças climáticas são fontes de riscos financeiros que ameaçam a estabilidade financeira, pois riscos climáticos que efetivamente provoquem efeitos danosos na economia podem originar crises econômicas inesperadas e de magnitudes imprevisíveis. Nesse sentido, os bancos centrais são os responsáveis pela estabilidade do sistema financeiro, e qualquer perturbação a essa estabilidade requer medidas e ações por parte da autoridade monetária (CAMPOS, 2021).

Segundo Campiglio et al. (2017), existem várias maneiras pelas quais os bancos centrais e os reguladores financeiros podem se envolver com as mudanças climáticas e a transição de baixo carbono. Em primeiro lugar, podem favorecer a avaliação de riscos relacionados ao clima, tanto para instituições individuais quanto em nível sistêmico. Em segundo lugar, eles podem empregar as ferramentas políticas à sua disposição para mitigar os riscos relacionados ao clima e apoiar o desenvolvimento de atividades de baixo carbono. Nesse sentido, ao longo da pesquisa, serão apresentadas algumas estratégias adotadas por alguns bancos centrais.

No entanto, vários fatores contribuem para explicar a relutância dos reguladores nas economias de alta renda em usar as regulamentações prudenciais como ferramenta para apoiar a transição de baixo carbono (CAMPIGLIO et al., 2017). Apesar de reconhecer explicitamente a relevância dos riscos financeiros relacionados ao clima, existe um debate sobre a intervenção dos bancos centrais nas mudanças climáticas. Esse debate aborda se eles têm papel de salvaguardar o sistema financeiro e se existe a possibilidade de uma intervenção excessiva comprometer suas autonomias. Essa problemática será analisada ao longo da pesquisa.

Sendo assim, diante desse cenário, esta pesquisa pretenderá responder como alguns bancos centrais estão enfrentando as mudanças climáticas, tanto na questão de inclusão de riscos climáticos nos modelos de risco, quanto na transição para uma economia verde.

Autor: Stefano Caiula.

Mudanças climáticas


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