No estudo, foi analisado o músculo dos peixes por meio de espectrometria de absorção atômica
Um estudo publicado na revista Food and Chemical Toxicology, da editora Elsevier, em setembro de 2025, avaliou o risco do consumo de pescado vendido em estabelecimentos da cidade do Rio de Janeiro em relação à contaminação por mercúrio. O artigo, assinado por pesquisadores das universidades do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mostra que, apesar de a maioria das espécies analisadas apresentar mercúrio, o risco de contaminação é baixo, pois as concentrações estão dentro dos limites recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A exceção foi o tubarão-azul, também conhecido como cação-azul, que apresentou níveis de contaminação acima dos aceitos.
As análises realizadas pelos pesquisadores registraram, em média, 1,27 mg/kg de mercúrio no cação-azul. A espécie não é pescada no litoral do Rio de Janeiro, mas é importada e pode ser encontrada em supermercados, hortifrutis, feiras-livres e peixarias da capital fluminense. “Esses números são mais do que o dobro do limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde para o consumo seguro de peixe. Por isso, essa é uma espécie que exige um pouco mais de cautela ao ser consumida”, afirmou Alice de Souza Picaluga, doutora em Ecologia e Evolução pelo Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes (Ibrag) da Uerj, e autora principal do artigo.
Os resultados do estudo apontaram outro dado preocupante em relação ao cação-azul: cerca de 80% dessa concentração se encontrava sob a forma orgânica e mais tóxica, o metilmercúrio. Neurotóxico, o mercúrio pode causar efeitos graves à saúde humana. A contaminação por esse metal pesado pode resultar em problemas neurológicos, má formação e atraso no desenvolvimento motor e cognitivo.
O artigo publicado no periódico foi resultado da dissertação de mestrado de Alice Picaluga, sobre a contaminação por mercúrio do pescado consumido no estado do Rio de Janeiro, feita sob orientação da professora Tatiana Lemos Bisi, no Programa de Pós-Graduação em Oceanografia da Uerj. O trabalho fez parte de uma colaboração entre pesquisadores do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores (Maqua), da Faculdade de Oceanografia da Uerj; e do Laboratório de Estudos Ambientais Olaf Malm (LEA-OM), do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF) da UFRJ.
“Selecionamos as espécies que representam a realidade do consumo da população no estado. Aquelas mais vendidas nos supermercados, feiras e peixarias. A proposta foi avaliar se esses peixes poderiam representar riscos à saúde em função dos níveis de mercúrio”, destacou Alice, que foi bolsista da FAPERJ durante a pesquisa. O projeto teve apoio financeiro da Fundação, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
A professora Tatiana Bisi destaca a relevância do projeto.
“O estudo reforça a importância de orientar a população sobre quais espécies podem ser consumidas com mais frequência e quais devem ser consumidas com menos frequência ou até mesmo evitadas. Principalmente para grupos mais sensíveis, como crianças, gestantes e mulheres em fase de aleitamento”, explicou Tatiana, cujos projetos são apoiados pelo programa Jovem Cientista do Nosso Estado da FAPERJ.
Segundo Alice Picaluga, para produzir o artigo foram analisadas espécies frequentemente consumidas e facilmente encontradas em supermercados e feiras da Região Metropolitana do estado do Rio de Janeiro, como cação, abadejo, congro-rosa, linguado, salmão, panga, atum enlatado e mexilhões. Esses peixes vêm de países como Argentina, Chile, Portugal, Uruguai e Vietnã e representam o pescado industrializado.
Espécie de topo da cadeia alimentar, de vida mais longa e carnívora, o cação-azul se alimenta de outros peixes. À medida que se alimenta de espécies menores, bioacumula o mercúrio e tende a apresentar concentrações mais elevadas desse elemento. Já espécies como o panga e os mexilhões apresentaram níveis de mercúrio muito baixos em comparação com outras. “Nelas, as concentrações variaram, em média, de 0,0003 mg/kg a 0,0005 mg/kg. Isso indica que essas espécies são mais seguras para o consumo”, explicou a bióloga.
Já na dissertação que deu origem ao artigo, Alice Picaluga avaliou ainda peixes pescados na Baía de Guanabara, como bagre, corvina, robalo e tainha, espécies tradicionais da pesca artesanal e regional, vendidas em feiras e peixarias. Nesse grupo, o bagre e a corvina também apresentaram concentrações significativas. Os exemplares maiores tendem a bioacumular o mercúrio em seus tecidos. Então, as concentrações tendem a ser maiores neles, como acontece com o cação. Segundo Tatiana Bisi, os níveis de mercúrio são determinados por meio da análise de diferentes órgãos e tecidos.
“No estudo feito pela Alice, foi analisado o músculo dos peixes por meio de espectrometria de absorção atômica”, explicou.
Pesquisando a contaminação do ambiente marinho nas baías de Guanabara, Ilha Grande e Sepetiba há mais de 15 anos, a professora Tatiana Bisi explica que o mercúrio está presente naturalmente na natureza. O metal tende a se depositar no fundo, junto ao sedimento, e até a realização de dragagem pode redisponibilizar esse elemento. Em alguns locais, devido ao despejo de esgoto doméstico e de efluentes industriais, as concentrações são maiores.
“A Baía de Guanabara se destaca por sua elevada concentração de metais e poluentes orgânicos. A situação é crítica. As fontes de contaminação são múltiplas e difusas. Os peixes estão expostos e, por isso, é muito importante haver monitoramento e o trabalho dos órgãos de fiscalização”, afirmou Tatiana.
Segundo a professora, os golfinhos atuam como sentinelas da saúde dos oceanos. “Estudamos muito os golfinhos, que são animais de vida longa, vivendo, em média, de 15 a 30 anos, dependendo da espécie. Eles acumulam os contaminantes, mas sobrevivem à poluição, permanecendo no ecossistema impactado”, explicou a pesquisadora que atua no Laboratório Maqua/Uerj.
Outro aspecto do artigo publicado no periódico científico destacado pela professora Tatiana Bisi foi a realização da análise genética das espécies avaliadas. Isso comprova que os peixes vendidos são, de fato, os anunciados. “Não encontramos nenhum tipo de fraude no pescado analisado vendido em supermercados e peixarias. O consumidor sabe o que está comprando”, finalizou a professora da Faculdade de Oceanografia da Uerj. Com informações da Faperj
Fonte: labnetwork

