BIBLIOTECA

Morbidade e mortalidade por doenças cardiorrespiratórias associadas à poluição do ar

Resumo

Doenças Cardiorrespiratórias – Os gases poluentes emitidos pelas indústrias de extração, transformação, focos de calor e frota veicular das cidades geram sérias repercussões na saúde, principalmente doenças do sistema cardiorrespiratório. O objetivo do estudo foi identificar os índices de morbidade e mortalidade por doenças cardiorrespiratórias associadas à poluição do ar no Brasil e em Santa Catarina no período de 2008 a 2019. Trata-se de um estudo quantitativo analítico, com desenho ecológico de séries temporais. Foram utilizados dados disponíveis no Departamento de Informações do Sistema Único de Saúde (DATASUS), sendo incluídos todos os casos de internações e óbitos de crianças menores de cinco anos de idade, adultos maiores de 40 anos e idosos acometidos por doenças cardiorrespiratórias como asma, doença pulmonar obstrutiva crônica, pneumonia e infarto agudo do miocárdio. Para avaliação dos dados, utilizaram-se cálculos de prevalência e percentual e teve como base de análise os indicadores de efeito adotados pelo Vigiar, preconizado pelo Ministério da Saúde. Tanto no cenário brasileiro quanto em Santa Catarina, os resultados mostraram que os idosos foram os mais afetados por doenças cardiorrespiratórias no período estudado, sendo que a pneumonia foi a patologia com maior prevalência, com 176,4 óbitos a cada 1000 internados no Brasil e 154,2 óbitos a cada 1000 internados em Santa Catarina. Considerando o infarto agudo do miocárdio, o Norte brasileiro e o Sul catarinense apresentaram as maiores prevalências, com 129,1 e 128,4 respectivamente. Os índices elevados de morbimortalidade das doenças estudadas estão relacionados com regiões que possuem forte envolvimento com atividades poluentes.

Introdução

Doenças Cardiorrespiratórias – O Brasil está, atualmente, entre as 20 nações com o ar mais poluído do mundo, ficando atrás de países que compõem os continentes Asiático e Europeu, segundo dados oficiais do The World Air Quality Index Project (2021). Nesse cenário, as mudanças climáticas ocasionadas pelo aumento dos poluentes atmosféricos têm impacto em várias esferas, afetam a biodiversidade, a economia e, em especial, a saúde da população, principalmente os agravos do sistema respiratório (Fernandes et al., 2021). De acordo com Zadinello et al. (2021), o bem-estar e qualidade de vida do ser humano está diretamente atrelado às questões ambientais, não apenas pela influência que tem no dia a dia, afinal a população está em contato permanente com a poluição atmosférica, mas também porque as consequências dos danos gerados ao meio ambiente no presente determinam consequências futuras.

A Organização Mundial da Saúde (OMS, 2018) refere que doenças cardiovasculares e respiratórias estão entre as doenças crônicas não transmissíveis que mais matam no mundo, contabilizando 17,9 milhões e 3,9 milhões de mortes por ano, respectivamente. Dentre os diversos fatores de risco identificados, Nawrot et al. (2011) apontam que a exposição à poluição está intrinsecamente relacionada ao infarto agudo do miocárdio (IAM), dentre outras patologias que acometem o sistema circulatório. Para o Ministério da Saúde (Brasil, 2015a), doenças respiratórias como asma, bronquite e infecção respiratória aguda (IRA) são as principais comorbidades relacionadas à inalação de contaminantes atmosféricos, causando danos especialmente em idosos e crianças.

Pode-se dimensionar a quantidade de poluentes no ar atmosférico e seus efeitos à saúde com o índice de qualidade do ar, que compreende as partículas inaláveis (MP10), as partículas inaláveis finas (MP2,5), fumaça (FMC), ozônio (O3), monóxido de carbono (CO), dióxido de nitrogênio (NO2) e dióxido de enxofre (SO2). Esses contaminantes são medidos e a partir de um cálculo de índice, é possível classificar o ar em Bom, Moderado, Ruim, Muito Ruim e Péssimo. A população em geral só passa a sentir sintomas leves, como tosse e cansaço, quando a qualidade do ar está classificada como Ruim, porém nas pessoas sensíveis (crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias e cardíacas), esses sintomas começam com qualidade Moderada, já as repercussões na saúde decorrentes do ar Péssimo englobam sérias manifestações cardiovasculares e respiratórias em toda a população e mortes prematuras nas pessoas sensíveis.

Esses dados revelam a importância de políticas governamentais, a exemplo da Vigilância em Saúde de Populações Expostas à Poluição Atmosférica (Vigiar). Essa é uma das áreas de atuação da Vigilância em Saúde Ambiental que faz parte do Sistema Único de Saúde (SUS), instituída pela Política Nacional de Vigilância em Saúde (PNVS) em 2018, na publicação da Resolução no 588/2018 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), documento norteador das ações em vigilância (BRASIL, 2018). Partindo do princípio de que para compreender os fatores determinantes da saúde humana é necessário também compreender o ambiente em que as pessoas residem e trabalham (Augusto, 2003), o Vigiar monitora os indicadores de qualidade do ar em áreas de risco e correlaciona com os indicadores de saúde, na intenção de promover ações de atenção integral à saúde das populações que habitam nesses locais (Brasil, 2020a).

No Brasil, apenas dez estados e o Distrito Federal realizam o monitoramento da qualidade do ar por meio de 371 estações ativas (Vormittag et al., 2021). As primeiras ações para implementação do Vigiar foram feitas em 2004, nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Espírito Santo e Bahia (Villardi et al., 2011). Atualmente, no Estado de Santa Catarina, o Vigiar ainda está em fase de implementação (Santa Catarina, 2020), o que significa que existe uma falta de monitoramento atmosférico e consequente limitação dos estudos referentes aos efeitos causados pelas partículas do ar na saúde dos catarinenses.

Diante do cenário apresentado, da importância desses fatores ambientais relacionados à saúde pública, da crescente urbanização e industrialização do Brasil e de Santa Catarina que está relacionada com a poluição atmosférica, este estudo tem como objetivo identificar os índices de morbidade (internações) e mortalidade por doenças cardiorrespiratórias associadas à poluição do ar no Brasil e em Santa Catarina, ocorridos no período de 2008 a 2019.

Autores: Daniellen Brunetto, Vitória Loss, Samuel Spiegelberg Zuge e Maria Assunta Busato.

leia-integra

 


LEIA TAMBÉM: 2,6 MIL LIXÕES ABERTOS NO BRASIL