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Descarga de efluentes líquidos contendo radionuclídeos em uma instalação de medicina nuclear e seus impactos no meio ambiente

Resumo

Este estudo tem por finalidade avaliar as concentrações de atividade (CA) dos radionuclídeos usados nas instalações de Medicina Nuclear e seus impactos no meio ambiente. Foram realizadas coletas de amostras de esgoto em dois termos fontes: uma instalação de Medicina Nuclear (MN) e uma estação de saneamento ambiental (ESA). Com emprego de dois espectrômetros [NaI(Tl) e HPGe], foi detectada a presença de 131I nas amostras coletadas. Na instalação de MN, o esgoto contendo 131I requer adequação no uso da diluição para reduzir a CA deste radionuclídeo visando sua liberação, enquanto que, na ESA, os valores da CA do 131I ficaram dentro do nível de dispensa. No ponto de vista ambiental, os valores da CA do 131I na ESA foram inseridos no Código ERICA Tool para estimar as taxas de dose absorvida nos organismos da biota marinha. Este estudo sugere que seja proposto um modelo de radioproteção ambiental, com base das recomendações da Publicação ICRP 103 (2007) e GSR-3 (IAEA, 2014a).

Introdução

A Terra está em permanente exposição às radiações de origem terrestre e cósmica, cuja presença de radionuclídeos no meio ambiente dá-se em amostras de rochas, água, ar e solo (UNSCEAR, 2000; KHAN, AKHTER & ORFI, 2005). A precipitação de radionuclídeos naturais e artificiais em amostras ambientais (fallout) está relacionada ao monitoramento ambiental e a sua vigilância é essencial para proteção da biota, tornando-se uma das principais questões devido à exposição das radiações e seus efeitos sobre a saúde humana, plantas e animais (KHAN, AKHTER & ORFI, 2005).

O interesse na proteção do meio ambiente vem crescendo nos últimos anos em relação a todos os aspectos da atividade humana. Esse interesse é acompanhado pelo desenvolvimento e aplicação de vários meios de gestão e avaliação em função do impacto humano no meio ambiente (ICRP, 2007). A crescente conscientização sobre os potenciais impactos significa que a sociedade tenha uma melhor compreensão a partir da abordagem relacionada aos riscos de exposição radioativa na biota (ARPANSA, 2015).

As atividades humanas que envolvem o emprego de substâncias radioativas podem gerar exposições à radiação acima da exposição natural. Um dos exemplos é a contaminação ambiental causada por rejeitos radioativos resultantes de testes de armas nucleares em algumas partes do mundo (UNSCEAR, 2000; AARKROG et al., 1986; HOLM et al., 1986a; HOLM et al., 1983, apud HOLM et al., 1986a). Outros exemplos são atividades que empregam substâncias radioativas emitidas por usinas nucleares e outras instalações que liberam materiais radioativos para o meio ambiente durante a operação e descomissionamento (UNSCEAR, 2000; HOLM et al., 1986a), assim como no reprocessamento de combustível nuclear (HOLM et al., 1986b).

Os acidentes ocorridos durante a operação dos reatores nas usinas de The Three Mile Island, perto de Harrisburg, capital do Estado da Pensilvânia, nos EUA em 1979, de Chernobyl, na Ucrânia (ex-república da extinta URSS) em 1986 (KELLER, 2012), de Mihama, na província de Fukui, a 320 km a oeste de Tóquio em 2004 e de Fukushima-Daiichi, devido ao terremoto ocorrido no Oceano Pacífico seguido de tsunami, a 130 km da Península de Ojika, no Japão em 2011, resultaram em danos ao meio ambiente. Foram registradas concentrações de atividade de radionuclídeos artificiais em animais que viveram em ambientes contaminados próximos a estas instalações após os eventos (OHTSUKA et al., 2015).

Em 1987, o acidente radioativo em Goiânia, capital do Estado de Goiás, ocorreu com o furto de uma blindagem de chumbo contendo uma fonte de césio-137 (137Cs) na forma de cloreto, com atividade de 50,9 TBq, abandonada em uma clínica de radioterapia desativada. O furto foi praticado por dois catadores de um ferro-velho que entenderam tratar-se de sucata, sendo desmontada e a fonte sendo rompida, resultando no espalhamento e contaminação no local, gerando problemas de saúde em centenas de pessoas, culminando com 4 óbitos (PORTAL CNEN, 2017; PORTAL Césio 137 Goiânia, 2017). Vários locais contaminados com o 137Cs foram descontaminados, o que resultou na geração de rejeitos de, aproximadamente, 6.000 toneladas e que se encontram abrigados e monitorados, em caráter definitivo, em um repositório situado no município de Abadia de Goiás, a 23 km de Goiânia (PORTAL Césio 137 Goiânia, 2017).

O acidente em uma fábrica de reprocessamento de urânio na usina de Tokaimura, a 140 km de Tóquio, no Japão em 1999, ocorreu devido à admissão de óxido de urânio em um tanque contendo uma solução de ácido nítrico oito vezes acima do limite de segurança (o permitido era de 2,30 kg) gerando grande liberação de energia e radioatividade. Foram afetadas 57 pessoas, sendo que 7 eram moradores das redondezas que foram contaminados por precipitação de urânio no ar. Por precaução, as autoridades de Tokaimura ordenaram às 320.000 pessoas que moravam em um raio de 10 km a deixar suas residências por um período de 24 horas (SANTOS & OLIVEIRA FILHO, 2009).

Os exemplos de acidentes radioativos mencionados foram classificados nos níveis 4 (local consequences) a 7 (major accident) na escala INES (International Nuclear and Radiological Event Scale). Essa escala, desenvolvida em 1989 pela Agência Internacional de Energia Atômica (International Atomic Energy Agency – IAEA) em conjunto com a Agência de Energia Nuclear da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (Organization for Economic Co-operation and Development/ Nuclear Energy Agency – OECD/NEA), é uma ferramenta utilizada para comunicar ao público de forma aberta e consistente o significado de segurança de eventos nucleares e radiológicos (PORTAL IAEA, 2012). A Figura 1.1 ilustra o grau da escala INES indicando dois tipos de níveis: incidentes e acidentes. Os incidentes representam os níveis mais baixos (de 1 a 3), cujas ocorrências nucleares são restritas à área da instalação e que não afetam a área externa. Os acidentes representam os níveis mais altos (de 4 a 7), cujo impacto nuclear venha a atingir a área externa da instalação, pondo em risco vidas humanas. Os eventos que não têm significado sob o ponto de vista de segurança, classificados como nível zero ou abaixo da escala INES, são denominados desvios, e podem indicar a degradação de algumas barreiras de proteção.

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Autor: Alessander Sá do Carmo.