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Crise Hídrica no Município de Campinas/SP: Uma análise do Impacto da Escassez Hídrica nos Custos Diretos Variáveis Empregados no Tratamento de Água

Resumo

Este trabalho tem como objetivo analisar o impacto, nos custos diretos variáveis empregados no tratamento de água no município de Campinas (SP), durante o período da crise hídrica (dos anos 2014 e 2015). Para tanto, foi realizado um estudo de caso envolvendo a companhia de abastecimento de água do município de Campinas (SANASA S/A), com dados dos custos diretos variáveis do período de 2012 a 2016. Também teve por objetivo verificar, quais produtos mais impactaram esses custos durante esse período crítico de escassez hídrica e analisar a influência que a vazão de água (disponibilidade hídrica) existente no Rio Atibaia exerceu sobre os mesmos. Face aos dados analisados verificou-se que para uma aplicação mais coerente dos custos variáveis, seria necessário estabelecer outra variável para a correta projeção desses custos. Observou-se que o custo variável, do volume de água produzido, não varia somente com a quantidade produzida, mas também em função da variação na vazão de água do rio (disponibilidade hídrica). Uma vez demonstrado que a variável vazão do rio é importante para a definição dos custos variáveis em saneamento, foram conduzidas análises de variâncias (ANOVAs) e de discriminante com a abertura dos custos variáveis com energia elétrica e matérias primas, para verificar o impacto dos mesmos em função das diferentes vazões do Rio Atibaia. Como conclusão, verificou-se que quando a vazão do rio Atibaia é baixa (volume abaixo de 10.52 m³/segundo), nota-se um aumento expressivo nos custos com Cal Virgem, Carvão Ativado, Cloro, Hidróxido de Cálcio e Hipoclorito de Sódio.

Introdução

A cidade de Campinas (SP) não possui um sistema próprio de armazenamento de água bruta o que a torna dependente do Sistema Cantareira em períodos de estiagem prolongada, como o que ocorreu em 2014. Existem estudos para a construção de um reservatório de água bruta através de barramento do rio Atibaia. Há ainda uma iniciativa do Governo do Estado de São Paulo, através do DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica), para a construção de reservatórios no rio Jaguari na cidade de Pedreira e no rio Camanducaia em Amparo (DAEE, 2017), tendo por objetivo criar uma reserva hídrica estratégica na bacia dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, na qual pertence a Cidade de Campinas, permitindo dessa forma aprimorar a operação do sistema Cantareira. O Sistema Cantareira possui seis represas em diferentes níveis e são interligadas por 48 Km de túneis (SABESP). Campinas (SP) passou, ao longo do ano de 2014 e parte do ano de 2015, por uma das piores crises hídricas já enfrentadas pelo município. A escassez hídrica, decorrente de um volume de chuvas inferior ao de anos anteriores, fez com que houvesse a necessidade de se utilizar águas de Reserva Técnica do sistema de Abastecimento Cantareira para suprir uma demanda reprimida de água bruta no rio Atibaia. Também chamada de “volume morto”, a Reserva Técnica configura-se como sendo parte da água da represa que fica abaixo do ponto de captação (SABESP). O rio Atibaia é responsável por abastecer 95% da população da cidade (SANASA, 2014). A SANASA (Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento S/A), empresa de economia mista, de capital aberto, cuja participação majoritária pertence a Prefeitura Municipal de Campinas, atualmente responsável pelo serviço de abastecimento de água do município de Campinas, foi obrigada a realizar, inclusive, campanhas educativas para o consumo consciente de água nesse período para evitar riscos de desabastecimento, bem como reforçar medidas de controle, desde a captação à distribuição para consumo. Soriano et al. (2016) descreveram que a maioria das grandes cidades do mundo estão sujeitas a variações de precipitação e, por consequência, a problemas no sistema de abastecimento. Dessa forma, em um período de crise hídrica, como a que ocorreu durante os anos de 2014 e 2015, a disponibilidade de água bruta para captação é mais escassa, reduzindo dessa forma a vazão média de água existente no rio.

Cortês et al. (2015) relataram que as questões climáticas passaram a ocupar espaço significativo na concepção de estratégias organizacionais e políticas públicas, pois possuem impacto direto na disponibilidade da água Soriano et al. (2016) mencionaram que em um momento de crise hídrica, há pessoas afetadas diretamente, pela intermitência no abastecimento das residências, e, indiretamente, pelo aumento nos preços de insumos cuja produção ou fabricação depende da disponibilidade de água. Por conseguinte, foi observado um aumento nos custos diretos variáveis, utilizados para produção de água potável nesse período, mesmo havendo uma redução no volume de água tratada/produzida, em decorrência da diminuição no consumo de água pela população, que atendeu à solicitação para um consumo consciente da água durante o período da crise hídrica. Normalmente quando da análise dos custos variáveis, os mesmos estão atrelados a quantidade de unidades fabricadas, ou seja, é atribuído um custo dito como variável para cada item fabricado, dessa forma quanto maior a quantidade produzida maior será o total do custo variável (e de forma recíproca, quanto menor for a quantidade produzida, menor será o total do custo variável).

Porém foi observado que em relação aos custos para o tratamento de água, a quantidade produzida é apenas um elemento a ser levado em consideração para o cômputo dos custos variáveis, sendo que no caso específico em análise, outro elemento que deve ser levado em consideração nesse custo, torna-se a vazão média de água existente no rio onde ocorre a captação da água bruta (disponibilidade hídrica). Portanto, no tratamento de água observa-se um interessante caso de aplicação da Contabilidade de Custos, em que se pode verificar um aumento nos custos variáveis mesmo com a redução no volume de água tratada, ou ainda uma redução nos custos diretos variáveis, mesmo com o aumento no volume de água tratada. Esse aparente comportamento paradoxal, se dá em função da vazão média de água existente no rio onde ocorre a captação da água bruta. Nesse sentido, o objetivo desse trabalho é verificar, através dos dados disponibilizados pela Companhia de Saneamento de Campinas (SANASA S/A), o impacto nos custos diretos variáveis empregados no tratamento de água no município de Campinas, durante o período da crise hídrica (dos anos 2014 e 2015). Parte-se da hipótese que se houver uma redução da vazão média de água existente no rio para captação, haverá um aumento nos custos variáveis para tratamento da água bruta coletada, mesmo havendo uma redução no volume de água tratada. Dessa forma, o volume de tratamento de água não seria o único elemento para direcionar os custos variáveis, ou seja, deve-se levar em consideração também o volume de água bruta disponível para captação nos rios (vazão do rio). Por conseguinte, esse trabalho visa contribuir com a literatura em Contabilidade de Custos com um caso aparentemente contra intuitivo.

Autores: Adriano Menezes Messias; Renato Ferreira Leitão Azevedo; Antonio Moreira Franco Junior e Pedro Cláudio da Silva.