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Condições socioambientais e econômicas do sertão sergipano de Poço Verde/SE

Resumo

Este artigo tem como objetivo analisar os reflexos da seca no campo-cidade em contexto multidimensional e as possibilidades e desafios apreendidos sobre a convivência no semiárido a partir de Poço Verde/SE. Os procedimentos metodológicos que delinearam este trabalho foram: levantamento bibliográfico, pesquisa de campo e entrevista semiestruturada com atores sociais. A seca é um dos azares climáticos no município analisada como fenômeno natural e multidimensional. Os sertanejos poçoverdenses sofrem no período de estiagem e seca, com reflexos no campo-cidade, sendo que há correlação entre os processos naturais, econômicos, sociais e políticos. A dinâmica dos processos naturais integradas às ações humanas promoveu no decorrer da história transformações na paisagem com evidências de degradação socioambiental e econômica, presente no semiárido do município de Poço Verde/SE.

Introdução

A seca no Nordeste é representada por uma natureza hostil de efeitos lentos e dramáticos. Representa uma condição ambiental, social, política e econômica. Entende-se que a realidade nordestina não se constitui apenas em termos climáticos e nem se reflete tão somente no campo. Suas vicissitudes se apresentam no campo e na cidade, em diferentes graus de intensidade, conforme a realidade cultural e social das comunidades envolvidas.

A concepção de natureza hostil demonstra o grau de alienação intrínseco ao conceito natureza, cuja leitura direciona para o papel político do Estado e para a hostilidade objetiva de manter a ordem vigente, isto é, o status quo justificado pelo elevado poder aquisitivo de uma minoria da população (CARVALHO, 2010, p. 123). E ressalta que,

A concepção externalizada de natureza hostil ganha a leitura determinista pelo Estado Moderno, e o Estado Brasileiro põe em prática ações de intervenção sobre as secas, uma vez que essas foram avaliadas como as causas naturais do atraso e da pobreza no Semiárido. Na concepção de território naturalizado pelas secas, caberia ao Estado-nacional a tarefa de civilizar o território, corrigindo o determinismo natural, cujas intervenções dar-se-iam conta de inserir esse território dentro da ideia de nação forte, redirecionando-o para o desenvolvimento nacional (IDEM, 2010, p. 124).

            Historicamente, as ações intervencionistas implementadas pela política de combate à seca mantiveram-se na cultura elitista e excludente do Estado, com elaboração de programas de emergência para assistir aos flagelados e amenizar o problema da escassez de água, com ações e medidas paliativas e assistencialistas, com irregularidades, mau uso dos recursos e favorecimento as oligarquias regionais (MENEZES, 1999). Isso justifica a ideia que a população tem da seca, com uma visão determinista e sem solução de fenômeno natural, imposto por um sistema que camufla as desiguais e rígidas estruturas sociais e econômicas regionais como a concentração de terras e de poder político nos territórios. É um problema antigo, mas que perdura até os dias atuais, especialmente onde há dependência significativa das condições naturais de clima e de solos.

Demo (2000, p.11) corrobora com as discussões sobre as políticas assistencialistas, relatando que “reserva para o pobre uma educação pobre, uma saúde segunda categoria, uma habitação subumana, e assim por diante”. Assim, é possível compreender que o Estado, a partir das políticas paliativas, não atinge a raiz dos problemas e apropria-se da natureza semiárida para camuflar a realidade.

Para Castro (2003, p. 199) “com as secas desorganiza-se completamente a economia regional e instala-se a fome no sertão”. Portanto, a falta de políticas consistentes para solucionar este problema multidimensional, sobrepõe momentos de miserabilidade da população como a fome e a escassez de água potável fazendo com que haja migrações para outras regiões do país em busca de emprego para sustentar a família. Obras literárias como “O Quinze” de Rachel de Queiroz (1930) e “Vidas Secas” de Graciliano Ramos (1975) retrataram acontecimentos sociais sobre o sofrimento do povo nordestino do século XIX e XX.

Embasados em levantamentos teóricos e em realidades similares, alguns autores da literatura acadêmica Brasileira discutiram sobre a política de combate à seca: Josué de Castro (1951; 2001); Djacir Menezes (1937); Guimarães Duque (1980); Josefa Eliane S. de Siqueira Pinto (1999); Iná Elias de Castro (1992; 2005) Celso Furtado (1959; 1979); Manuel Correia de Andrade (1988; 1999; 2005); Francisco de Oliveira (1993, p.50) dentre outros.

Este artigo tem como objetivo analisar os reflexos da seca no campo/cidade, num contexto multidimensional e as possibilidades e desafios apreendidos sobre a convivência no semiárido a partir de Poço Verde Sergipe.

A elaboração do trabalho foi estabelecida a partir de levantamento bibliográfico e realização de trabalho de campo em oito povoados do município de Poço Verde/SE, a saber: São José, Tabuleirinho, Saco do Camisa, Rio Real, Ladeira, Lagoa do Junco, Lajes e Amargosa (Figura 1) e sua sede local, nos dias oito a treze de abril de 2012, onde foram observadas a paisagem semiárida e a convivência do agricultor com a terra a partir dos levantamentos de dados diretos com os agentes sociais.

Figura 1: Distribuição espacial dos povoados pesquisados em Poço Verde, Sergipe, Brasil.

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Os critérios para a seleção dos povoados deu-se a partir da divisão de áreas limítrofes do município de Poço Verde Sergipe, considerando as características particulares de dois espaços, um destaca-se na agricultura (São José, Tabuleirinho, Saco do Camisa e Lajes) e outro na pecuária (Rio Real, Ladeira do Tanquinho, Lagoa do Junco e Amargosa), embora desenvolvem também o plantio de milho e feijão em pequena quantidade. São os maiores povoados com aglomerações de populações residentes próximo da propriedade de terra, que variam entre aproximadamente duzentos a setecentos habitantes. Uma característica homogênea dos povoados é que todos vivem o drama da seca, visto que no trabalho este fenômeno tem uma visão multidimensional, envolvem aspectos naturais, político, econômico e social.

Como apoio ao trabalho de campo foi utilizado câmara digital para realizar os registros fotográficos. Concomitantemente constituiu de entrevistas semiestruturadas e com os agricultores e residentes urbanos do município. Fez-se uso de gravador como forma de garantir a honestidade das respostas e o comprometimento das interpretações. Foram aplicados vinte questionários aos agricultores de cada povoado citado anteriormente, totalizando cento e sessenta entrevistados no campo e setenta amostras de residentes urbanos. As perguntas tiveram caráter qualitativo e quantitativo que auxiliaram de forma significativa na análise do trabalho, pois os mesmos sentiram-se bastante a vontade para falar de suas experiências com a terra, ao qual representa trabalho, subsistência, luta e lucratividade.

Para elaboração do mapa da área de estudo foi utilizado a base cartográfica do Atlas Digital Sobre Recursos Hídricos do Estado de Sergipe/SEPLAN/SRH-2011/12, assim como o Sistema de Processamento de Informações Georreferenciadas na versão do ArcGis 9.3 e suas extensões para geração do banco de dados digitais.

Em suma, os sertanejos poçoverdenses sofrem no período de estiagem e seca, com reflexos tanto no campo quanto na cidade, sendo que há correlação entre os processos naturais, produtivos, econômicos, relações de trabalho e sociais e políticas públicas. Pesquisas que envolvam abordagens múltiplas devem se desenvolver na perspectiva de que trarão melhores condições de conhecimento e de convivência do homem, no campo e na cidade do semiárido.

Autores: Alberlene Ribeiro de Oliveira e Josefa Eliane Santana de Siqueira Pinto.

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