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Seminário Internacional Controle de Perdas e o Enfrentamento da Escassez Hídrica

Publicado em 15/07/2016 às 11:02:18

O “I Seminário Internacional de Controle de Perdas e o Enfrentamento da Escassez Hídrica”, foi realizado pela ABES entre os dias 5 e 7 de julho de 2016 no Hotel Holiday Inn, no Parque Anhembi em São Paulo. O evento reuniu profissionais com vasta experiência no combate às perdas em sistemas públicos de abastecimento de água, tanto no Brasil quanto no exterior.

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O objetivo deste encontro foi o de promover a troca de experiências, o benchmarking e a disseminação das práticas de excelência, no Brasil e no exterior, que fazem a diferença na conquista de resultados. Também uma oportunidade de um amplo debate sobre um problema extremamente importante a todos os operadores, não importando seu tamanho.

Foram dois dias de palestras, debates e apresentações de estudos de caso. Entre as presenças internacionais: Ronnie Mckenzie (África do Sul), Roland Liemberger (Áustria), Alan Wyatt (Estados Unidos), Michel Vermersh (França), Sue Mosburg (Estados Unidos), Julian Thornton (Inglaterra) e Enric Castelvi (Espanha).

O seminário internacional foi o maior evento sobre perdas na América Latina. Após a região sudeste do Brasil atravessar uma das maiores crises hídricas de sua história, sendo importante a reflexão sobre o quanto o programa de perdas ajudou a superar esta fase crítica.

Paulo Massato, diretor Metropolitano da Sabesp, abriu as apresentações na quarta-feira, 6 de julho, primeiro dia dos debates com o tema “As perdas no contexto de uma crise hídrica: ações antes, durante e depois – consequências e resultados – Experiência na Região Metropolitana de São Paulo”.

Em sua apresentação, Massato destacou o apoio da população que entendeu a situação hídrica contribuindo de maneira efetiva. Foi adotado pela Sabesp o programa de bônus e ônus além de ampliar as medidas de redução de pressão. Mais de 62% das redes de água da companhia são controladas por válvulas redutoras de pressão e boosters (bombas). A empresa também substituiu mais de 310 mil metros de redes e aumentou seu trabalho em pesquisa de vazamentos, ocasionando um aumento significativo nos vazamentos detectados. As vistorias realizadas pela Sabesp em imóveis residenciais e comerciais foram ampliadas e divulgadas pelos veículos de comunicação, isso também auxiliou muito no combate de irregularidades sobre o furto de água tratada, em diversos casos levando os contraventores à prisão.

O diretor, recordou que “se não tivéssemos realizados as obras do volume morto do Cantareira, a partir de novembro de 2014, não teríamos água regularizada em nenhuma das represas para abastecer a Grande São Paulo. Por isso, fizemos barragens nas represas Jaguari, Jacareí e Atibainha visando ampliar a disponibilidade hídrica. Em outra etapa, tivemos que buscar água em áreas mais profundas (volume morto) na própria represa Jacareí/Jaguari”. Simultaneamente, o sistema Alto Tietê também passou por uma grave estiagem. Para reduzir impactos, a Sabesp executou obras para aumentar a captação em Biritiba-Mirim mediante a reversão do córrego Guaratuba, aproveitamento do Rio Guaió para a ETA Taiaçupeba e uma obra para reverter água de um braço do Rio Grande. Assim como, a capacidade de produção das estações de tratamento de água, também necessitaram ser ampliadas. “A Estação de Tratamento de Água Alto da Boa Vista (ABV), recebeu uma nova tecnologia de ponta por membranas de ultrafiltração, nova até mesmo para a gente, em tempo recorde de quatro meses”. No entanto, como a situação do Cantareira ainda era a mais preocupante, precisava ocorrer a transferência de água de outros sistemas para áreas servidas pelo sistema. Para que isso fosse possível, quase a totalidade das obras foram realizadas com mão de obra própria e dedicação integral dos profissionais da Sabesp.

Devido ao aumento da capacidade de produção da água e construção de 24 reservatórios metálicos, a capacidade de reservação foi ampliada em 25%, passando para 1,2 milhão de m³. A Elevatória Flex, foi também outra obra que ajudou a combater a escassez de água, permitindo que os reservatórios, instalados em pontos estratégicos, fossem abastecidos por mais de um sistema produtor de água. Tendo como exemplo grande parte das zonas norte e central passaram a receber água do Alto Tietê onde antes eram abastecidos pelo Sistema Cantareira. A água produzida no Guarapiranga, chegou à Avenida Paulista, grande divisor de águas e área mais elevada da cidade.

Massato afirmou, que o Sistema Cantareira se mantém estável. O clima tem mostrado, que não deverá ocorrer algum fenômeno imprevisto de secas nos próximos meses.  “Essas estratégias e intervenções realizadas é que possibilitaram superarmos a crise hídrica, se vier o pior sabemos como atuar novamente, temos compreensão que há muito que aperfeiçoar”, concluiu Massato.

Sue Mosburg, da AWWA (American Water Works Association), apresentou a experiência vivida pela Califórnia, que passou por crise hídrica semelhante à de São Paulo.

Segundo a especialista americana, no sul da Califórnia onde ela reside e trabalha, enfrentar situações difíceis como um ciclo de suficiência hídrica seguido por escassez é um modo de vida. “A discussão sobre esse tema é fundamental atualmente, diversas ações que fazemos nos Estados Unidos e na Califórnia aprendemos com o nosso passado. A forte estiagem que o Brasil atravessa, pode ser muito importante para o aprendizado. Como exemplo vale destacar as medidas de redução de pressão que os técnicos brasileiros trabalham, nós não passamos por isso. Dessa forma, observar como são capazes de realizar isso e perceber como a população lidou com essas ações é de grande utilidade para nós. Possuímos enormes preocupações, como o que ocorreria se a gente ficasse sem água? O Brasil quase passou por essa situação, então isso não parece mais tão assustador”.

Para Sue Mosburg, as ações têm sido importantes em vários países para auxiliar as cidades a alcançar reduções consideráveis no consumo de água e no controle de perdas. “Em épocas de seca, uma saída simples é se dedicar em soluções para o consumidor, como a instalação de vasos sanitários com baixo fluxo e outros dispositivos eficazes. Também estabelecer estrutura tarifária progressiva, que cobra a mais a água adicional consumida. A redução por parte do cliente, entretanto, é somente parte da solução. Tem sido descoberto pelos prestadores de serviços, que a maior conservação pode ser atingida dedicando-se em contabilizar com exatidão todo o recurso hídrico entregue dentro e fora do sistema de distribuição e devidamente informados sobre esses dados, adotar medidas para alterar as práticas do sistema de distribuição de água, como gestão das pressões, calibração dos medidores e conserto das tubulações. Estas atividades do sistema são onerosas e a melhor maneira de determinar prioridades é tendo como base o valor econômico de cada opção de intervenção. A realização de uma auditoria, como ação inicial para um controle de perdas, torna-se fundamental”, afirmou.

Enric Castellví, da Aigues de Barcelona, discorreu sobre as ações adotadas antes, durante e depois da crise.

A crise de Barcelona em 2007-2008 foi muito séria atingindo todos os setores da economia. Chegou a um ponto tão crítico na Catalunha, que Barcelona começou a importar navios de água da França. Foi reduzido o volume de água a 100 litros por família por dia, também foi construída plantas de dessalinização. “A redução da demanda foi importante, reduzindo todo tipo de uso de água que podia ser considerada superficial. Devemos analisar mensalmente os indicadores de gestão, estar sempre atentos e com técnicos competentes”.

Barcelona possui clima mediterrâneo com invernos suaves e úmidos e verão quentes e secos, mitigados pelo mar. As chuvas são irregulares. Nos últimos anos, os períodos de seca têm sido repetidos ciclicamente, como em 2002, 2005 e 2008.

Segundo Castellví, para enfrentar as situações críticas de seca, o município possui a flexibilidade de se adaptar às condições do momento, com instalações que incluem tecnologias avançadas através dos sistemas centrais para apoiar a operação, permitindo um controle automático da rede que controla as pressões e o fluxo. Além disso, a rede está dividida em várias zonas de operação, aumentando a flexibilidade para agir em casos excepcionais.

Barcelona dedica seus esforços para otimizar a utilização dos recursos disponíveis e evitar o desperdício durante o processo de purificação. Entre as fontes de água: Conservação e recuperação dos aquíferos da Llobregat, recuperação da qualidade das águas subterrâneas (aquíferos) do rio Besos e uso alternativo de águas subterrâneas.

Para minimizar as perdas de água, a distribuição é setorizada com a utilização de novas tecnologias e equipamentos para reduzir vazamentos, evitar fraudes e agir rapidamente em casos de incidentes na rede de abastecimento.

De acordo com o especialista espanhol, os cidadãos que vivem na região de Barcelona normalmente utilizam a água que necessitam sem desperdiçar. Consumir de forma sustentável não é uma atitude específica em tempos de seca, mas um hábito responsável.

O Eng° escocês Ronnie Mckenzie, atualmente radicado na África do Sul, abordou as análises econômicas e técnicas de perdas nas redes de distribuição de água em situações de escassez hídrica.

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Segundo Mckenzie, o clima predominante na África do Sul é o semi-árido, porém possui clima subtropical na costa oriental do país e o mediterrâneo no extremo sul, com distribuição desigual de chuvas. O país atravessa o seu quinto ano de seca e os principais reservatórios do sistema de armazenamento estão se aproximando de 50%. O país possui 54 milhões de habitantes, e as principais cidades, Joanesburgo e Pretória, estão localizadas no centro do país.

A apresentação do engenheiro, foi direcionado nas técnicas de planejamento de recursos hídricos desenvolvidos e utilizados na África do Sul para gerenciar sistemas extensivos de recursos hídricos, que permitem que a água seja transferida de uma localidade para a outra do país. Ele salientou as semelhanças entre os sistemas de recursos hídricos sul africano e brasileiro e sugeriu que poderia haver margem de manobra para cooperar tanto na modelagem do sistema e atividades de redução de perda de água, onde ambos os países têm considerável experiência e capacidade técnica.

“Quando um encanamento perde água, é possível consertar. Mas quando são milhares de vazamentos seria necessário dispor de milhões de dólares. Isso ocorre na África do Sul, onde várias casas possuem torneiras e ligações baratas que não se ajustam aos padrões. Isso ocasionou sérios problemas por não estarem projetadas para suportar as características da pressão de água e nem as mudanças de temperatura comuns no sul do país”, pontuou. Dados da Rede Estratégica de Parceiros da Água (REPA), da Fundação de Negócios NEPAD, em Joanesburgo, demonstraram que no setor das cidades verificam-se perdas de água em cerca de 37% ao ano.

“A instalação de novos aparelhos como canos e tubulações custaria 21 milhões de dólares, em Sebokeng, na província sul-africana de Gauteng, onde vivem 420 mil pessoas e há 84 mil ligações à rede de fornecimento de água. Era impossível fechar todos esses pontos de vazamentos, mas seria possível reduzir a pressão da água e também seu desperdício. Foram instaladas válvulas para reduzir a pressão na tubulação principal da rede de fornecimento de Sebokeng e, dessa forma, a municipalidade economizou 4 milhões de dólares ao ano. Os ineficientes sistemas de irrigação no meio rural também são motivos de preocupação, afirmou Mackenzie.

Para Mckenzie, o Brasil enfrenta diversos desafios reais associados ao fornecimento de água para a população que vem aumentando gradativamente e a redução das perdas de água será sempre um desafio vital, devido ao envelhecimento da infraestrutura e uma carência generalizada de financiamento para manutenção de rotina, que é um problema crítico, não só nos países em desenvolvimento, mas em todos os países.

O especialista destacou as ações efetivas e também as iniciativas técnicas apropriadas ao contexto brasileiro. Para ele, ao debater as perdas de água, a maioria das pessoas imaginam que o conserto de vazamentos é a questão principal e, em alguns casos a única questão. Em várias situações como os vazamentos, são um sintoma de outros problemas escondidos, tais como envelhecimento dos tubos ou altas pressões de água. Assim como é muito importante localizar e consertar todos os vazamentos o quanto antes, muitas vezes é também necessário tentar diminuir a pressão da água e, em alguns casos, reparar partes da tubulação. A substituição da tubulação é indicada em várias situações como uma das medidas iniciais para reduzir vazamentos, quando de fato deveria ser o último recurso, já que tende a ser um dos procedimentos mais onerosos. Em diversos países, reduzir a pressão da água é possível sem baixar o nível de serviço aos clientes e, em tais casos pode ser bastante eficaz na diminuição de vazamentos, além de prolongar a vida útil dos tubos. O Brasil é um dos países que identificou os benefícios do gerenciamento de pressão e é um dos líderes mundiais no setor da redução de perdas de água. Redução de perdas não é um processo simples ou rápido, e em grandes metrópoles como São Paulo, é indispensável uma visão de longo prazo, onde as perdas são encaradas ao longo de 10 ou 20 anos, durante o qual podem ser progressivamente reduzidas.

 

Gheorge Patrick Iwaki

gheorge@webapp233877.ip-104-237-133-206.cloudezapp.io

Responsável Técnico

Fonte: Portal Tratamento de Água


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