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Gestão do risco hídrico nas empresas

Com investimentos superiores a 490 milhões de reais e a capacidade de evitar o consumo de mais de 212 milhões de litros de água doce por mês, a Braskem se posiciona como pioneira na gestão hídrica sustentável, com a meta de alcançar 100% de água de fonte segura até 2030

A administração da água consolidou-se como uma das prioridades mais urgentes para governos, comunidades e corporações em todo o planeta. Os padrões climáticos voláteis e uma demanda em constante ascensão fizeram com que o conceito de risco hídrico seja um fator diretamente relacionado à estabilidade econômica e social.

Conforme a definição de organismos internacionais como United Nations Water, o WWF e o CEO Water Mandate, a segurança hídrica refere-se à capacidade de assegurar o acesso sustentável a quantidades adequadas de água de qualidade aceitável, empregando o recurso de maneira socialmente equitativa, ambientalmente sustentável e economicamente benéfica, juntamente com um nível aceitável de riscos inerentes à água. Este conceito, tão vital quanto a potabilidade da água para as antigas civilizações que se estabeleciam nas margens de rios e nascentes, adquire hoje uma nova dimensão diante da magnitude da crise climática e da industrialização global.

O risco hídrico manifesta-se de múltiplas formas, desde prolongadas secas que aniquilam colheitas e restringem o acesso à água potável, até devastadoras inundações que deslocam populações e destroem infraestruturas. O Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudanças Climáticas (IPCC), em seus relatórios, tem destacado de maneira consistente como o aquecimento global agravará a frequência e intensidade desses fenômenos extremos. A elevação do nível do mar ameaça as fontes de água doce costeiras com a intrusão salina, enquanto a alteração dos ciclos hidrológicos intensifica a variabilidade na disponibilidade da água.

Esses desafios não são exclusivos de uma única região. Países da América Latina, com sua imensa biodiversidade e fartos recursos hídricos, também enfrentam cenários de escassez ou de excesso. A interconexão das economias mundiais implica que o risco hídrico em uma área pode ter repercussões nas cadeias de suprimentos e nos mercados internacionais, afetando desde a produção de alimentos até a manufatura industrial.

Para transitar por este intrincado panorama, torna-se imperativo adotar uma perspectiva holística que vá além das soluções convencionais. A eficiência hídrica, isto é, a otimização do uso da água em cada processo, constitui um primeiro passo fundamental. No entanto, a sustentabilidade a longo prazo exige ir além. O reúso de água, tanto a nível interno nas operações industriais quanto externo, mediante o tratamento de águas residuais, emerge como uma potente solução. Esta prática diminui a demanda de fontes de água doce e minimiza a descarga de efluentes, gerando um duplo benefício ambiental.

Outro conceito chave é o de “Net Positive Water” (Impacto Hídrico Líquido Positivo). Esta meta, impulsionada por iniciativas como o Global Compact e o CEO Water Mandate, insta as empresas não apenas a reduzir seus impactos negativos, mas a repor e restaurar de forma ativa e quantificável a saúde das bacias hidrográficas onde operam. Isso implica o investimento em projetos de infraestrutura natural, a colaboração com outras partes interessadas na bacia e a promoção de uma boa governança da água a nível local e regional.

O modelo Braskem

Neste cenário de desafios e soluções, o caso da Braskem, a maior petroquímica da América, apresenta-se como um referente de como uma grande corporação pode integrar a sustentabilidade hídrica no cerne de sua estratégia operacional. A empresa assumiu um compromisso robusto para construir resiliência hídrica em suas operações globais e cadeias de suprimentos, buscando ativamente um “impacto hídrico positivo coletivo”.
Para obter uma perspectiva interna sobre o modelo de gestão hídrica, a ALADYR conversou com Luiz Carlos Xavier, de Desenvolvimento Sustentável da Braskem. Ele enfatiza que o maior desafio para as empresas latino-americanas é a integração da visão de risco e do impacto financeiro da descontinuidade operacional em cenários de estresse hídrico.

“Aqueles que não se adequarem estarão expostos a potenciais conflitos na disputa deste recurso com a própria sociedade”, afirmou.

A Braskem superou esse desafio ao integrar uma avaliação que considera aspectos econômicos, sociais, ambientais e de risco no processo de decisão, assegurando a continuidade do negócio mesmo em períodos de escassez.

Xavier também destacou o papel crucial das políticas públicas e da colaboração. Para ele, “políticas públicas adequadas são fundamentais para incentivar a replicação desse modelo que traz benefícios socioambientais e econômicos.” Ressaltou que a colaboração e o engajamento devem ir além do âmbito intersetorial, envolvendo também o poder público e o privado, já que a falta de recursos hídricos afeta a todos.
Com a meta de alcançar a segurança hídrica até 2030, a Braskem envia uma mensagem clara para outras empresas:

“Ao definir sua estratégia, tenham um olhar para a melhoria da eficiência dos seus processos, mas também considerem um olhar externo, buscando minimizar o impacto do seu negócio”. Ressaltou a importância da circularidade e do reúso da água, buscando, sempre que possível, gerar impacto positivo no uso desses recursos.
Em sua busca por resiliência hídrica, a Braskem está focada em migrar para fontes seguras e mais sustentáveis. “Na Braskem buscamos migrar para fontes seguras mais sustentáveis, priorizando o reúso de água e buscando engajar outros atores, afinal o risco hídrico não se segrega, ele é compartilhado”, concluiu.

A Braskem implementa um rigoroso processo de gestão do risco hídrico em 7 etapas, integrado com sua gestão de risco climático e empresarial. Este processo sistemático guia suas ações.
Em primeiro lugar, realizam uma exaustiva avaliação de riscos climáticos e desenvolvem um plano de adaptação. O processo detalha 10 diferentes ameaças climáticas físicas, ajustadas às condições locais de cada unidade industrial.

Para isso, empregam o modelo computacional MOVE (Model for Vulnerability Evaluation) da WayCarbon, fundamentado na metodologia de risco do IPCC de 2014. Esta ferramenta permite modelar as ameaças climáticas e determinar a probabilidade de ocorrência de riscos físicos, utilizando uma matriz de impacto e probabilidade que considera critérios financeiros, ambientais, de saúde, segurança, contexto social e imagem. Por exemplo, em sua análise, identificam as unidades com maior exposição a riscos como a seca severa.

Um segundo passo é a avaliação da vulnerabilidade de bacias hidrográficas como a do Rio Mundaú / Rio Remédios, onde a Braskem projeta para o ano de 2040 um “risco ALTO” relacionado com a variação sazonal e interanual da disponibilidade hídrica, assim como com a oferta de água em relação à demanda. Os dados revelam que a demanda agrícola (65,0%) e doméstica (21,4%) superam significativamente a industrial (13,6%), o que sublinha a complexidade da gestão de recursos compartilhados e a necessidade de priorizar o acesso humano.

Baseando-se nas avaliações anteriores, a Braskem prioriza as regiões com maior risco e aplica seu Índice de Segurança Hídrica (WSI), uma métrica que quantifica a proporção de água proveniente de fontes seguras em relação ao volume total de entrada de água. As “fontes seguras” incluem bacias de baixo risco, reúso de efluentes, água subterrânea renovável e água do mar.
Na quarta etapa, são avaliadas novas fontes de água, como o reúso de água de estações de tratamento, que oferece vantagens como a negociação de preços, redução de efluentes, independência e boa reputação, embora exija negociação com autoridades ambientais e partes interessadas. Outra opção é a dessalinização, que proporciona independência.

Além disso, a empresa compreende que a resiliência hídrica não é apenas uma questão interna. Trabalha com fornecedores e participa de ações coletivas para abordar os desafios hídricos compartilhados e promover soluções ao longo de toda a cadeia de valor.

Finalmente, o sétimo passo concentra-se nas soluções sustentáveis WASH. Refere-se a iniciativas de Água, Saneamento e Higiene (Water, Sanitation and Hygiene), que a Braskem apoia para impactar positivamente as comunidades.

Reúso em larga escala

Existem dois projetos que demonstram o compromisso e a capacidade da Braskem para implementar soluções em larga escala. Um deles é o Projeto Aquapolo, o gigante do reúso na América do Sul. Operacional desde 2012, o Aquapolo consolidou-se como a maior planta de reúso em operação na América Latina. Essa iniciativa é resultado de uma parceria inovadora entre uma empresa de saneamento (SABESP), um operador privado (GS INIMA) e um usuário industrial (Braskem). Desde sua implantação, evitou o consumo de mais de 212 milhões de litros de água doce por mês por parte do complexo da Braskem no ABC, um volume equivalente ao consumo de 35.000 pessoas.

O Aquapolo foi imprescindível para a Braskem durante a grande crise hídrica de 2014-2015 na região do ABC, o que permitiu à companhia aumentar suas operações enquanto outras empresas sofriam perdas. A Water Resilience Coalition (WRC) reconheceu o Aquapolo como uma ação coletiva exemplar, o que destaca seu valor como estudo de caso de colaboração intersetorial.

Outro projeto a ser destacado é o da Braskem e Aegea em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, onde as empresas estão investindo 490 milhões de reais para melhorar a infraestrutura de saneamento e o fornecimento de água. Este projeto permitirá que o processo industrial da Braskem utilize 100% de água de reúso, com uma capacidade total de 850 litros por segundo de abastecimento. Além dos benefícios diretos para a Braskem, a iniciativa contempla a construção de mais de 500 quilômetros de rede de esgoto e a antecipação da implementação da Estação de Tratamento de Efluentes (ETE) Faria, beneficiando 266 mil pessoas com esgoto coletado e tratado, e 150 mil pessoas com água tratada. A iniciativa transforma o fluxo hídrico atual, redirecionando o efluente da população da ETE Faria para a Braskem para reúso, em vez de ser descartado na Baía de Guanabara, fechando assim um ciclo virtuoso.

Com a meta de alcançar o uso de 100% de água de “fonte segura” até 2030, a Braskem posiciona-se como líder em sustentabilidade dentro de sua indústria e oferece um modelo prático para outras companhias que buscam transitar os contextos de escassez hídrica com resiliência e responsabilidade.

Fonte: Aladyr


Mais sobre este autor:

Fundada em 30 de novembro de 2010, no âmbito do II Seminário Internacional de Dessalinização na cidade de Antofagasta, Chile. A AADYR é uma associação sem fins lucrativos que promove conhecimentos oportunos e experiências em torno de tecnologias de dessalinização, reuso de água e tratamento de efluentes, a fim de otimizar a gestão hídrica na América Latina e garantir o acesso à água potável dentro de padrões de qualidade, eficiência, sustentabilidade, desenvolvimento econômico e futuro social.

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