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”Dessalinização precisa ser um projeto de governo”

Encravado numa região desértica do Oriente Médio sem mananciais de superfície naturais ou erguidos pelo homem tampouco a presença de árvores e plantas nativas nas maiores cidades, como Jerusalém, Israel é um país que depende da dessalinização da água do mar para todas as atividades do cotidiano.

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Há mais de 70 anos, quando sequer o Estado de Israel havia sido instituído, essa já era uma prática comum. Com o passar dos anos, o advento das tecnologias proporcionou a modernização dos processos de captação do líquido, filtragem para extração do sal, distribuição às residências e demais empreendimentos públicos e privados e, principalmente, o reuso.

Para embaixador, a gestão do uso das águas, licitação e contratação de empresas cabem ao Governo, enquanto usinas de dessalinização devem ficar com a iniciativa privada.

Apontado como um dos projetos para mitigação dos efeitos da seca no Rio Grande do Norte, a dessalinização da água do mar poderá contribuir para a perenização da oferta de água potável para a região do semiárido potiguar, que há séculos sofre com a escassez hídrica. A tecnologia israelense, referência no mundo – com a instalação de aproximadamente 350 usinas de dessalinização em 40 países ao redor do globo – foi exposta aos empresários, pesquisadores, professores universitários e estudantes que acompanharam a 35ª edição do Motores do Desenvolvimento, pelo embaixador de Israel no Brasil, Yossi Avraham Shelley.

Na entrevista a seguir, ele destaca que tão importante quanto a captação e o consumo, é o reuso da água em plantações, pastagens e na fruticultura irrigada. O custo desse processo, inclusive, pode ser menor que o adotado na maioria das cidades do mundo na atualidade.

Será possível dessalinizar água no estado potiguar e reutilizá-la?

A dessalinização precisa ser um projeto de governo. As pessoas usam a água mas não sabem de onde vem, onde vai parar. E isso é muito arriscado porque as pessoas não valorizam a água, não tem noção do risco que é ficar sem água potável no planeta. O governo precisa fazer as plantas de dessalinização para captar água, usá-la e reutilizá-la. Quando se abre a torneira em casa, não se sabe de onde ela veio. E os governos precisam instalar plantas nesses lugares para captar essa água e reutilizar. É urgente essa necessidade.

O senhor acredita que as tecnologias que são desenvolvidas e implementadas em Israel poderão ser exemplos para o Rio Grande do Norte?

Sim, eu acredito que sim. Se o Governo do Rio Grande do Norte quiser, ele consegue. Não são investimentos muito altos. E é preciso firmar parcerias com empresas privadas. Eu levo muitos empresários em Israel para ver, com os próprios olhos, as nossas plantas de dessalinização. Mas, eu acho que a iniciativa deve partir dos governos para acabar a escassez de água nos litorais e também no interior dos estados, no interior do Rio Grande do Norte, na região do Semiárido. Israel fez três ou quatro projetos para acabar com a seca: usa água do mar, água salobra, de aquíferos subterrâneos. Todos nós temos os recursos, mas é preciso saber usá-los.

Quais tecnologias Israel poderá exportar para mitigar a falta de água doce no semiárido?

Primeiro, o sistema de dessalinização que usamos é muito barato em relação à proporção de preços que pagamos hoje pela captação de água convencional, mais usada pelos estados. Esse sistema de dessalinização é muito conhecido em Israel, visto que, 80% da água do mar que usamos são dessalinizadas. Como eu disse, o sistema se barateou e se tornou popular. No Rio Grande do Norte, já é usado o sistema de dessalinização a partir da osmose reversa, que também é bastante conhecido em todo o mundo. Conversei com técnicos e secretários de Estado e levei uma proposta para ajudar a investir um pouco de dinheiro de Israel, fazer um negócio entre o Estado do Rio Grande do Norte e a nação israelense, com aval do Ministério da Economia, para fazer disso um projeto-piloto de dessalinização de água.

Qual a importância de discutir a dessalinização da água do mar no atual cenário de escassez hídrica potável no mundo?

Podem ser dessalinizadas a água do mar ou a água salobra, que tem um menor conteúdo de sal. Projetos de dessalinização são geralmente realizados de acordo com o modo BOT (BuildOperate-Transfer, em tradução livre do inglês, ConstruçãoOperação-Transferência) e, portanto, todos os custos são apresentados por metro cúbico de água produzida. O custo da produção depende de muitos fatores, mas, aproximadamente, é dividido em três partes quase iguais: custo da eletricidade e dos produtos químicos, custo da construção e das membranas e do custo financeiro. Um fator que influencia muito é o tamanho da planta. Por exemplo, em uma planta que produza 20 milhões de metros cúbicos por ano, o preço de um metro cúbico será em torno de 1 dólar. E para uma planta que produza 100 milhões de metros cúbicos por ano, o preço será menor, cerca de 75 centavos de dólar.

E a dessalinização da água salobra?

Já a dessalinização de água salobra tem um custo muito menor, podendo ser cerca da metade dos custos de dessalinização da água do mar. É preciso enfatizar que a dessalinização é um processo que consome muita energia, cerca de 3 kWh por metro cúbico de água do mar produzida. Além disso, o custo final também depende da qualidade da água que deve ser tratada e a qualidade necessária para o produto. A gestão do setor da água em Israel é centralizada e concentrada na Autoridade de Água e é, por esta razão, que, apesar da maioria das plantas serem privadas, todo o processo de licitação e contratação é realizado pela Autoridade de Água.

Com a água descartada pelo processo de dessalinização, o que pode ser feito? Em quais outros procedimentos ela pode ser usada?

Uma grande quantidade de água é descartada no processo de dessalinização. Na água salgada, este montante pode ser de 35% a 45%. Esta água é chamada de concentrado ou rejeito. Se for de dessalinização da água do mar, é enviada de volta ao mar. Ao dessalinizar a água salobra, longe da costa, é necessário fornecer uma solução para o concentrado. Pela sua alta concentração de sais, é possível reutilizar o concentrado apenas para produzir sais ou em alguns casos para criar peixes.

O reuso da água imprópria ao consumo humano pode mitigar, no Semiárido Potiguar, a mortandade do rebanho por falta de recursos hídricos?

Em regiões distantes da costa, é possível em alguns casos utilizar a dessalinização da água salobra para a agricultura e também para o rebanho. Água salobra também pode ser usada diretamente para irrigar alguns tipos de culturas.

Em relação à produção de frutas tropicais, por exemplo, ela pode ser expandida a partir do reuso da água? Como se dá o controle de qualidade dessa água?

Em Israel são reutilizados 85% dos efluentes urbanos para a agricultura. Diferentes qualidades são conseguidas, como águas apropriadas para a irrigação irrestrita e para a irrigação limitada. Com o primeiro tipo de água, é possível produzir todos os tipos de frutas, incluindo frutas tropicais.

Quais as similaridades entre Israel e o RN, que permitirão o uso da tecnologia israelense?

Israel enfrentou um doloroso dilema: alocar água à agricultura e à indústria ou reduzir o fornecimento. Depois de analisar várias alternativas, como depender de outros estados e importar água em tanques, o primeiro-ministro israelense ordenou que a Companhia Nacional de Água iniciasse um plano de emergência para produzir água potável a partir da nossa faixa costeira. Como Israel, o Rio Grande do Norte está localizado diretamente na costa e tem clima quente. Os dois estados sofrem com secas contínuas e verões longos. A população, no entanto, continua a crescer, levando a um grande aumento do consumo de água.

Fonte: tribuna do norte