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Os recursos hídricos no agronegócio brasileiro: Uma análise insumo-produto do uso, consumo, eficiência e intensidade

Resumo

Neste artigo, avaliam-se, no agronegócio, o uso e o consumo de água bem como o nível de eficiência e intensidade da água com relação à renda e ao emprego. Para isso, desagregam-se e compatibilizam-se as Contas Ambientais da Água com a Matriz insumo-produto do país de 2015. Verificou-se que as atividades do agronegócio respondem por 18,85% do uso da água e por 90% do consumo da água do país. Os melhores índices de eficiência e de intensidade na geração de renda e de emprego destacaram, no uso da água, a agroindústria e, no consumo da água, os agrosserviços. As taxas de consumo e as taxas de retorno da água ao meio ambiente evidenciam que, de cada hm³/ano de água usada, na agropecuária, 70,45% é incorporada em sua produção e 29,55% retorna ao meio ambiente; e, na agroindústria, a taxa de consumo é de 54,58% e de retorno, 45,42%. Portanto, se considerar-se que o agronegócio é um grande exportador de alimentos para o mercado internacional, pode-se afirmar também que, por meio de suas exportações, fornece volumes significativos de recursos hídricos para a economia mundial.

Introdução

Ao longo das últimas décadas, na economia mundial, os sistemas produtivos agrícolas sofreram transformações importantes em função da mecanização do campo, do desenvolvimento de defensivos e de fertilizantes químicos, da biotecnologia e da tecnologia da informação. Em virtude disso, no Brasil, a produção rural passou a integrar-se à dinâmica econômica das indústrias produtoras de bens e insumos para a agricultura, bem como as indústrias processadoras e de serviços de base agrícola, naquilo que ficou conhecido como agronegócio.
O sucesso do agronegócio foi tal que o Brasil, de um país importador de produtos agropecuários, na década de 1970, tornou-se, em pouco tempo, um dos maiores produtores mundiais de alimentos. Certamente, além da modernização dos processos produtivos, os recursos hídricos vêm contribuindo significativamente com o crescimento do agronegócio na medida em que a água desempenha um papel fundamental na produção de alimentos no campo e em seu processamento industrial no setor urbano. Assim, não é difícil imaginar que as atividades produtivas do agronegócio brasileiro em constante crescimento pressionam permanentemente a demanda de água, dado seu status de referência mundial para o fornecimento de alimentos. Contudo, na economia brasileira, a água é tratada como um recurso escasso.
Embora o país possua as maiores reservas de água doce (12%) do planeta, para entender a escassez de água, é preciso considerar que essas reservas estão desigualmente distribuídas geográfica e demograficamente. Enquanto a região Norte apresenta a maior concentração de água em virtude da localização da Bacia do Rio Amazonas e o Aquífero Alter do Chão, a grande parte da população brasileira concentra-se nas regiões Sudeste e Nordeste que, historicamente, sofrem de secas e escassez de água (Pena, 2018).
Nesse contexto, as atividades agropecuárias frequentemente são associadas à falta de água, seja pelo desperdício em função de uma inadequada gestão dos recursos hídricos, pela agressão ao meio ambiente, seja por simplesmente existir falta de clareza sobre o volume de água utilizado e o volume de água consumido no sistema econômico.
A respeito, segundo a Agência Nacional da Aguas (ANA, 2018), as Contas Econômicas Ambientais da Água (CEAA), em 2015, informam que, dos 3.219.507 hectômetros cúbicos de água (hm³) usada na economia brasileira, em sua grande maioria, 99,05% ou 3.188.907 hm³ retornaram ao meio ambiente e às próprias atividades produtivas, e somente 0,95% ou 30.600 hm³ foram consumidas pelos processos produtivos, pelas famílias e pelos rebanhos. Desse modo, existe uma diferença substancial entre o volume utilizado e o volume consumido no sistema econômico do país.
Nesse panorama, deve-se salientar que grande parte da água usada pelo agronegócio na propriedade rural provém da chuva e somente em torno de 10% da área agrícola do país é irrigada. Deve-se considerar também que a produção de alimentos incorpora significativos volumes de água, pois, de cada hm³ de água ano utilizada na agricultura, 70,46% é consumida (incorporada em produtos) e 29,54% retorna ao meio ambiente (ANA, 2018).
Certamente, a pressão sobre o maior uso e consumo de água versus os argumentos de sua escassez aumentam o debate sobre os riscos e as incertezas da exploração econômica dos recursos hídricos que degradam o meio ambiente. Razão pela qual a comunidade internacional e as autoridades ambientais vêm questionando de forma crescente o agronegócio brasileiro sobre a necessidade de adequar suas atividades produtivas com a preservação do meio ambiente. Contudo, pouco se sabe sobre as interações que existem entre o agronegócio e os recursos hídricos, ou seja, a contribuição sistêmica da água nos processos de produção e de consumo do agronegócio brasileiro.
Nesse contexto, considerando a acelerada expansão do agronegócio brasileiro e a maior necessidade de recursos hídricos que isso implica, este artigo tem como objetivo mensurar, na estrutura do agronegócio brasileiro, o uso e o consumo de água e suas implicações inerentes à geração de renda e de emprego. Em particular, pretende-se avaliar a eficiência e a intensidade das atividades do agronegócio na exploração dos recursos hídricos do país. Com isso, espera-se, em um primeiro momento, compreender melhor a abrangência das interações do agronegócio com os fluxos da água, bem como fornecer subsídios para um melhor planejamento dos recursos hídricos nos próximos anos.
Após esta introdução, o presente artigo está dividido da seguinte maneira: na seção 2, apresentam-se o método utilizado para desagregar setorialmente o uso e o consumo das CEAA, a estrutura matemática para mensurar o agronegócio e a base de dados utilizada; a seção 3 avalia, no país, a evolução do estoque de água, bem como os fluxos setoriais da água destinados às atividades econômicas; a seção 4 avalia, na estrutura do agronegócio, inicialmente, o uso e o consumo de água, para logo estabelecer indicadores físico-econômicos de eficiência e intensidade, na dimensão econômica, de modo a relacionar o volume de água com a renda e, na dimensão social, relacionar o volume de água com o emprego; na última seção, são apresentadas as principais conclusões obtidas no decorrer da análise.
Autores: Marco Antonio Montoya e Eduardo Belisário Finamore.
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