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Patógenos em águas cinza: revisão

Resumo

O reuso de água cinza é relevante considerando-se os problemas de escassez hídrica cada vez mais frequente no mundo. Entretanto, sua utilização sem tratamento adequado apresenta riscos à saúde humana, pois patógenos podem estar presentes nesse efluente. Para proporcionar o reuso seguro, estudos de avaliação de risco microbiológico são recomendados. Para tal, é imprescindível levantar informações sobre possíveis patógenos e indicadores presentes nesta fração do esgoto doméstico. Na maioria dos estudos disponíveis na literatura não foram encontrados patógenos na água cinza. No entanto, em alguns estudos foram detectados bactérias, vírus e protozoários, e em concentrações que vão de 0.4 organismos.L-1 de Crypostosporium a 106 (UFC/100mL) de Salmonella. Vários autores relataram inviabilidade técnica e financeira na execução de análises de patógenos, tendo que recorrer à utilização de indicadores biológicos. No entanto, organismos indicadores tendem a sofrer influência de outros microrganismos ou substâncias químicas presente na água cinza. Logo, não é recomendado utilizar um único indicador para verificar contaminação de origem fecal, tampouco usar indicadores biológicos para estimar a concentração de patógenos na água cinza, pois podem subestimar ou superestimar os riscos.

Introdução

A água é essencial para a vida de todos os seres vivos que habitam nosso planeta. A natureza aleatória deste recurso, que se manifesta pela alternância de períodos chuvosos e períodos de seca, tornam-no ainda mais precioso (Pedro-Monzonís et al., 2015). A escassez de água doce já vem restringindo o desenvolvimento econômico e o bem-estar social em muitos países (Barbagallo et al., 2012; Mankad, 2012). Com o crescimento econômico e populacional previsto para as próximas décadas, aliados às mudanças climáticas e ao uso inadequado deste recurso, a demanda por água de boa qualidade deve aumentar e agravar esses problemas (Benami et al., 2013; Friedler, 2004). Uma alternativa promissora é a separação e reuso local de águas cinza (Dalahmeh et al., 2012; Fu et al., 2012; Hernández Leal et al., 2012; Lazarova et al., 2012; Mankad, 2012; Molinos-Senante et al., 2011; Santos et al., 2012). Essa prática pode reduzir de 30% a 50% do consumo de água em uma residência (Emmerson, 1998).

A separação na fonte consiste na coleta em separado do efluente na origem, de acordo com suas características. Em relação ao efluente doméstico, o mais comum é a separação em águas negras (efluentes provenientes dos vasos sanitários, como urina, fezes e papel higiênico) e águas cinza (lavatório, banho e lavanderia, excluindo o efluente proveniente dos vasos sanitários) (Otterpohl, 2001). Essa separação resulta numa água cinza com baixa contaminação fecal e com menos substâncias eutrofizantes (tabela 1), simplificando a sua reutilização no local (Gonçalves, 2009; Ottosson, 2003).

As águas cinza podem ser utilizadas para diversos fins não potáveis (Emmerson, 1998; Gross et al., 2015; Maimon et al., 2010; Ottoson & Stenström, 2003; WHO (2006b). Todavia, cuidados devem ser tomados em seu manuseio, tendo em vista os riscos ambientais e à saúde humana devido à possibilidade de presença de metais pesados (Guilbaud et al., 2012), compostos orgânicos (Finley et al., 2009), e principalmente, microrganismos patogênicos relacionados à contaminação cruzada por fezes (Gross et al., 2015; Maimon et al., 2014; Stenström et al., 2011; Tandlich et al., 2009), uma vez que microrganismos patogênicos (bactérias, vírus e parasitas) são expelidos em grande quantidade nas fezes de indivíduos infectados (Bitton, 2005; Feachem et al., 1983; Haas et al., 2014). Para compreender e gerenciar esses riscos, é imprescindível levantar informações sobre possíveis patógenos e indicadores presentes na água cinza e suas concentrações. Portanto, o objetivo desse trabalho foi realizar levantamento de literatura de concentrações de patógenos na água cinza e os indicadores de contaminação utilizados, informações essas a serem utilizadas em estudos de avaliação de risco.

Autores: Felipe Ramos Marques; Willian Ribeiro Ide e Paula Loureiro Paulo.