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Hidrelétricas e a geopolítica das energias renováveis na Amazônia

Resumo

Este artigo objetiva realizar uma reflexão em torno importância estratégica da energia hidrelétrica gerada na região amazônica para o sistema nacional interligado. Sua quantificação mostra que há um potencial regional de geração de energia superior em importância à produção atual de petróleo do pré-sal. Neste estudo, considera-se a questão sob a ótica da geopolítica das energias renováveis, que traz um conjunto de elementos novos e relevantes para o tema. O quadro analítico deste artigo centra na dependência de trajetória, nas redes inteligentes e nas sociedades energo intensivas e suas políticas de segurança energética. Conclui-se que, na configuração atual, o advento das energias renováveis pode constituir elemento adicional de uma especialização econômica de longo prazo da Amazônia, com consequências preocupantes na perspectiva socioambiental.

Introdução

Há uma ampla gama de motivos pelos quais a discussão sobre a energia se coloca historicamente para a geopolítica. O mais recente deles se relaciona ao processo de transição para as novas energias renováveis1 . São as consequências dessa transição que são relevantes para as relações de poder entre estados e para a economia, pois ela levará a uma redução da dependência de energia de origem fóssil e dos conflitos potenciais que a acompanham (MATUTINOVIĆ, 2009, p. 4252). Área de interesse crescente, a geopolítica das energias renováveis se estabelece na academia sobretudo a partir da década de 2010, com um aumento expressivo de publicações científicas sobre o tema. Parte de seus autores afirmam que a necessidade de independência energética foi um dos motivos principais para o financiamento das pesquisas tecnológicas que tornaram as novas fontes renováveis viáveis. Por outro lado, é lembrado que a dependência não desaparece por completo, mas ela é reduzida em intensidade e transicionada para a oferta de outras commodities, como as terras raras.

A transformação acelerada da matriz elétrica do país, em que a produção eólica se torna a segunda maior fonte de fornecimento, ultrapassando em posição as termelétricas, e que vê a fonte solar crescer a taxas de três dígitos ao ano, é um exemplo de um fenômeno extenso e global. Com as novas fontes de energia renováveis, geralmente estabelecidas mais próximas das regiões consumidoras, a gestão do sistema integrado de transmissão de eletricidade cresce em importância. Nessa configuração, a geração hidrelétrica, assim como a própria termelétrica, se torna estratégica pois atua como fonte de energia firme e bateria do sistema, complementando o fornecimento das renováveis que mostram diferenças horárias de geração, assim como sazonalidade anual específica.

O Amazonas é o maior dos rios existentes e sua bacia de drenagem é uma das mais importantes, situando-se em termos territoriais logo abaixo da do Golfo de México e Caribe (WRI, 2005). Ela possui a característica única de ter o seu desenvolvimento econômico configurado sem coerência com seu curso principal. As ações coordenadas e as estratégias de desenvolvimento são oriundas de uma sociedade sudestina, de ethos essencialmente platino. Guardando traços exógenos, essas ações são marcadas pelo estranhamento, que levou a um pensamento geopolítico que se traduz, também, em uma política de segurança energética e em uma especialização econômica.

Este artigo objetiva discutir criticamente o papel exportador de energia hidrelétrica da região Amazônica. Para tanto, são desenvolvidas reflexões sustentadas em três campos do conhecimento: a geopolítica da energia; a transição para fontes renováveis e a política ambiental.

Ele está subdividido em quatro seções. Na primeira é abordado o advento das energias renováveis, o conceito de dependência de trajetória e as consequências econômicas e sociais do aprisionamento em uma determinada tecnologia, nos médio e longo prazos. Nela será discutido também a instabilidade de sistemas encerrados e as políticas de segurança energética.

Na segunda e terceira seções, será abordado o aporte teórico da geopolítica das renováveis, enquanto expressão de relações de interesse inter-territorial, que embora traga novas variáveis, não impede a formação de sociedades energo-intensivas, assim como um populismo energético, que justifica amplamente a projeção de força no exterior,  através de instrumentos de comando e controle. Na última parte, será realizado um dimensionamento da energia planejada, atualmente produzida e exportada por usinas hidrelétricas localizadas na região amazônica, expresso em barril de petróleo equivalente, com vista a discutir seu papel estratégico. Resultados esses que se baseiam em um estudo extenso sobre 76 usinas individuais.

Na conclusão será realizada uma reflexão sobre cenários possíveis para uma região que se tornará crescentemente exportadora de recursos energéticos, articulando uma perspectiva geopolítica e socioambiental.

Autor: Carlos Potiara Castro.

 

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