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Estação de tratamento de esgoto (ETE) como instalação de recuperação de recursos

Resumo

No passado a abordagem das políticas ambientais era focada na questão de controle no “final do tubo”, ou ainda, no controle das emissões de fontes de poluição. No entanto, em função da exaustão dos recursos naturais e da necessidade de redução de emissões, esta abordagem evoluiu para análise do ciclo de vida e o foco passou a ser a recuperação de recursos, com o uso do biogás, produção de biossólidos e água de reuso. Surgem assim, denominações para as ETEs como instalação de recuperação de recursos e ETEs sustentáveis. O setor de saneamento, em parte, sempre procurou praticar o reuso, a disposição agrícola de lodo, a preservação dos recursos hídricos, aproveitamento da energia disponível no biogás, ainda que de forma isolada, etc. Assim, certas abordagens não são necessariamente novas para o setor e muito do que se prega na economia circular já tem ocorrido.

Introdução

A economia circular é baseada no princípio de manutenção do valor dos produtos, materiais e recursos pelo maior tempo possível, minimizando o descarte e o uso de novos recursos (adaptado de EC, 2017). Assim, ao final da vida útil, um produto pode ser reaproveitado para criar novo valor (CAPODAGLIO, 2017). As principais razões para a implementação de uma economia circular na Europa incluem: limitada disponibilidade de matérias-primas, a dependência da economia europeia à importação de matérias-primas (preços elevados, volatilidade do mercado, a situação política incerta em países selecionados) e diminuição da competitividade da economia europeia na economia global.

As ETEs podem ser uma parte importante da sustentabilidade circular devido à integração da produção de energia e recuperação de recursos durante a produção de água limpa (RASHIDI, H, 2015; MO, W. AND ZHANG, 2013), onde produtos, materiais (e matérias-primas) devem ser utilizados o maior tempo possível e os resíduos ser tratados como matérias-primas secundárias que podem ser recicladas e reusadas. Esta concepção, distingue-se de uma economia linear, com base no sistema de, ‘tomar-fazer-usar-dispor’, no qual resíduo é geralmente a última fase do ciclo de vida do produto. Atualmente, os principais catalisadores para o desenvolvimento da indústria de águas residuais são necessidades globais de nutrientes e de água e energia, a ser recuperada do esgoto.

No setor de saneamento básico, nos últimos anos, vem ocorrendo um movimento que é a abordagem de se considerar a Estação de Tratamento de Esgoto como fonte de Recursos, realçando a Sustentabilidade. Assim, no Editorial da WE&T de Nov de 2017, a publicação da WEF descreveu em julho de 2012, o anúncio da mudança de terminologia de “wastewater treatment plant” (estação de tratamento de esgoto) para “water resource recovery facility” (WRRF) (instalação de recuperação de energia) e em 2014 a adoção oficial. Pouco menos de 5 anos após a implantação desta nova nomenclatura, muitos atores do setor da cadeia de saneamento apoiaram a ideia e adotaram ações concretas, como por exemplo:

  • Muitas instalações incorporaram suas denominações de forma a incluir a recuperação de recursos ou água limpa.
  • Autossustentáveis (Energia Neutra) ou com Energia Positiva tornaram-se realidade ao redor do mundo.
  • Produção de água em estações para recarga de aquíferos ou estações de tratamento avançada

De modo semelhante, na Dinamarca, as ETES são vistas como uma fonte de recuperação de recursos naturais, destacando-se o projeto denominado VARGA (VAnd Ressource Genindvindings Anlæg), traduzindo Estação de recuperação de recursos naturais. Neste projeto está sendo avaliado e testado como a aplicação do conceito de economia circular pode auxiliar as ETEs a se tornarem produtoras de energia e recuperar nutrientes dos esgotos e do lodo para uso na produção agrícola, incorporando o uso de outros resíduos domésticos biodegradáveis e a adoção de inovações tecnológicas (BIOFOS, 2018).

No Brasil, com o mesmo conceito, vem-se popularizando o termo ETEs Sustentáveis, que é o nome dado ao INCT- Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, pertencente ao Programa Federal do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico/CNPq. Este INCT concorreu com outras centenas de propostas, tendo o privilégio de ser escolhida e representar o setor de conhecimento saneamento básico. A instituição líder do INCT ETEs Sustentáveis é a UFMG, sob coordenação do Professor Carlos Chernicharo.

Neste trabalho, serão apresentados os conceitos da economia circular aplicados ao saneamento, interfaces com os objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS), algumas experiências/iniciativas de instalações de recuperação de recursos, ilustrando com experiências/iniciativas da Sabesp.

Autores: Rosane Ebert Miki; e Marcelo Kenji Miki.