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Desenvolvimento sustentável e o Brasil – Degradação das metrópoles brasileiras: um olhar pelas dimensões de Ignacy Sachs

Publicado em 28/04/2021 às 09:45:57

Por Adriano Gama

No Brasil, 75 % da população encontra-se em centro urbanos, enquanto que, na década de 50, a população urbana era de 35 % e, na década de 70, era de 50 %.  Esta concentração urbana localiza-se geograficamente em toda extensão do que era a antiga mata atlântica, mantendo hoje somente cerca de 5 % do que era há quinhentos anos atrás.  A causa desta crescente urbanização, é o processo de industrialização a partir da década de 60, através da migração do poder econômico, do campo para a indústria.  Isto propiciou a articulação dos centros urbanos através de maciço investimento em vias urbanas, saneamento básico e infraestrutura industrial, especialmente nos setores de energia, petroquímica, química e siderurgia.

Contudo, esta corrida desenfreada pelo progresso da nação, estimulada pelo regime militar, aliada a uma total falta de percepção da insustentabilidade do Meio Ambiente, gerou metrópoles ambientalmente doentes.  A consequência desta realidade irrefutável está marcada pela diminuição da qualidade de vida nas metrópoles brasileiras, principalmente na região sudeste, seja pelas poluições (ar, sonora e visual), pela falta de saneamento básico, pela falta de controle dos resíduos sólidos, pela deterioração dos recursos hídricos, pelo lançamento indiscriminado de efluentes industriais ou pela falta de uma conscientização ecológica.

A partir da década de 70, começam a suscitar alguns levantes ecológicos, principalmente em São Paulo, já sendo uma das maiores cidades do mundo.  Porquanto, no mundo, as discussões sobre problemas ambientais e suas soluções encontravam-se avançadas.  Nesta mesma década aparece o conceito de desenvolvimento sustentável.  Pode-se notar o início da revolução verde contra o crescimento econômico insustentável ecologicamente.

Nos anos 80, aprofundam-se as discussões sobre desenvolvimento sustentável por toda a sociedade civil, desde ONGs, passando por políticos e empresários, culminando com o primeiro Seminário de Desenvolvimento Sustentável que, segundo Ignacy Sachs, é dinâmico e apresenta cinco dimensões:  social, econômica, ecológica, geográfica e cultural; todas interagindo simultaneamente.

Nos dias atuais, ao fazer um paralelo entre a realidade das metrópoles brasileiras e as dimensões observadas na teoria do desenvolvimento sustentável, notar-se-á uma real necessidade de mudanças drásticas para uma melhor qualidade de vida dos brasileiros dos centros urbanos.

A dimensão social, que impõe uma distribuição de renda mais equânime, com vistas à diminuição das desigualdades dos padrões de vida entre abastados e pobres, não se verifica no Brasil, e ainda de forma dramática é um dos países de maior concentração de renda.  Assim, o que se verifica nas metrópoles brasileiras é o crescimento da violência de uma forma geral.

A dimensão econômica que impõe investimentos públicos e privados com melhor gerenciamento dos recursos, não acontece de forma eficiente no país, primeiro pelas sucessivas crises econômicas, dificultando investimentos, e como já não bastasse isto, ainda existe a má utilização de verbas e a corrupção.

A dimensão ecológica que implica na capacidade de suporte, no caso das metrópoles, minimizando os impactos ambientais, reduzindo a poluição, com políticas de conservação de energia e de recursos, capacidade de reciclagem de resíduos sólidos, substituição de sistemas esgotáveis por recursos renováveis através de tecnologias eficientes e proteção adequada do meio ambiente.  Por esta dimensão, as cidades brasileiras encontram-se heterogêneas em alguns aspectos, por exemplo transportes urbanos e distribuição viária, poluição do ar e o abastecimento de água tratada e tratamento dos efluentes domésticos, e em outros aspectos são unívocas, como por exemplo, o aumento da poluição dos recursos hídricos, o problema do destino adequado dos resíduos sólidos.

A dimensão geográfica implica na distribuição espacial adequada da concentração populacional sem que ocorram excessos na região metropolitana, objetivando impedir a destruição de ecossistemas.  Assim, evidencia a necessidade de atingir uma configuração mais equilibrada das populações rural e urbana.  Atualmente, nas cidades brasileiras, ainda ocorre a migração populacional campo-cidade, porquanto da procura de emprego, gerando a favelização nas parcas áreas ambientais das cidades.  Não existe ainda uma política agressiva de contenção deste fluxo migratório e nem incentivo para inverter tal fluxo.

A dimensão cultural implica em estabelecer mudanças na educação da população, para que possa efetivamente entender e aplicar o desenvolvimento sustentável.  Esta dimensão, certamente é a principal e a mais difícil de ser alcançada no Brasil, pois mudar a mentalidade e dar consciência à população para as questões de sustentabilidade nas grandes cidades, irá requerer muita perseverança e tempo.

Notadamente, apesar dos esforços da sociedade através de organizações não governamentais com novas estratégias de conservação do meio ambiente; dos políticos elaborando leis ambientais; dos centros de pesquisas adequando tecnologias limpas; dos governos normalizando questões ambientais e dos empresários empenhando-se em investir em tecnologias verdes, ainda sim, têm muito que fazer para tornar as metrópoles brasileiras sustentáveis.  Um grande passo foi dado na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1992, no Rio de Janeiro, quando da elaboração de documentos que colocam diretrizes a serem seguidas, em termos de desenvolvimento sustentável em todo o mundo.

O artigo acima, na realidade, foi escrito em 1999. Foi um capítulo, parte integrante, de um trabalho desenvolvido por um grupo da 4a turma do MBA da COPPE, para a disciplina do professor Haroldo Mattos de Lemos. A conclusão que se chega é, nestes pouco mais de 20 anos, nada melhorou, de uma forma geral no Brasil. Imagina, tal artigo foi escrito um pouco antes de estabelecer os ODMs, que não foram retumbantes, nos 15 anos que vigoraram; já, os ODSs, ampliados em áreas e em metas, estão retumbantes, com vigor até 2030. Vamos nos esperançar para que os ODSs, tenham números melhores que seus antecessores e que possamos nos alentar com um futuro melhor.

adriano-gama

Eng. Químico / Eng. Sanitarista / Esp.  Meio Ambiente

adrianogama@globo.com


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