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Aplicação dos índices biológicos para avaliar a qualidade de água do rio Ouricuri no Município de Capanema, Estado do Pará, Brasil

Resumo: Problemas ambientais relacionados à qualidade da água em ecossistemas continentais têm motivado a realização de estudos que visam à proteção e conservação destes ambientes. O presente estudo teve como objetivo avaliar a qualidade da água em cinco pontos do rio Ouricuri, localizados dentro e fora da zona urbana do Município de Capanema, Estado do Pará, Brasil, utilizando os índices biológicos Biological Monitoring Working Party (BMWP) e Average Score per Taxon (ASPT). O resultado da avaliação dos índices biológicos identificou um padrão de qualidade de água que se apresentou como duvidosa (P1), crítica (P2, P3 e P4) e muito crítica (P5), poluídas de forma moderada e severa. Os valores de riqueza taxonômica tendem a diminuir à jusante do ponto P2, acompanhados pelo aumento dos níveis de turbidez, matéria orgânica e fósforo total, sendo os dois últimos medidos em nível de substrato. Foram identificados 1.039 indivíduos pertencentes a 14 famílias nos cinco pontos amostrados, sendo os principais grupos identificados como Chironomidae, Oligochaeta e Thiaridae. A mudança na composição da fauna de macroinvertebrados ao longo do rio Ouricuri apresenta-se como resultado da combinação de fatores antrópicos associados ao mesmo, tais como: perda de mata ciliar, erosão de margem, mudança de substrato, fluxo de efluentes domésticos e proliferação de macrófitas.

Introdução: Muito do que se observa das alterações que ocorrem em ambientes aquáticos são resultados, em grande parte, da expansão das fronteiras agrárias e, por conseguinte, das ações antrópicas, as quais atualmente têm causado enorme preocupação no que se refere à disponibilidade e qualidade dos corpos d’água1. Desta maneira, rios e riachos apresentam-se como ecossistemas intensamente impactados pelo avanço do crescimento demográfico das populações, lançamento de elevadas quantidades de efluentes de origem industrial e doméstico, construção de barragens, destruição de habitats e introdução de espécies exóticas. Tais eventos de origem antrópica têm ocasionado desequilíbrio nestes ecossistemas continentais de água doce, alterando as atividades tróficas e influenciando na diversidade de organismos que habitam os mesmos4. O impacto causado aos ambientes aquáticos continentais é resultante do aumento do fluxo de nutrientes e poluentes oriundos da agricultura, indústria e fontes domésticas5, sendo este o primeiro problema identificado como causa importante na determinação do declínio da qualidade e diversidade biológica dos rios. Por conta disso, nas últimas décadas, muitos esforços têm sido empregados no sentido de detectar, quantificar e mitigar estes efeitos. A característica natural de um ambiente lótico pode ser mensurada levando-se em conta o aparecimento de agentes orgânicos e inorgânicos em diferentes quantidades, composição e também pela diversidade da comunidade aquática presentes no ecossistema, na qual as particularidades deste ambiente estão sujeitas a variações estruturais e sazonais que são provenientes de fatores particularmente internos e externos do próprio curso d’água6. O monitoramento dos recursos aquáticos tem, como eixo principal de execução, a possibilidade de se fazer uma avaliação da presença ou ausência de alguns organismos em uma área do sistema lótico, sendo verificadas, nesse contexto, a quantidade e a diversidade de espécimes sensíveis ou não às perturbações frequentemente acometidas por esses ambientes7, ou seja, verificar o equilíbrio entre as comunidades de indivíduos no ecossistema. Os indivíduos de vida aquática, em especial os animais invertebrados, destacam-se como sendo os organismos que refletem as reais alterações ocasionadas aos sistemas aquáticos8, registrando não somente características especificamente relacionadas às condições da água, como também, a dinâmica de agentes que se estabelecem entre os fatores bióticos e abióticos (biótopo) do próprio ecossistema9. Os macroinvertebrados bentônicos são animais que apresentam no mínimo 0,25 mm, habitam o sedimento de corpos d’água e têm a capacidade de colonizar diversos tipos de substrato, tais como: restos de troncos, folhas, pedras e macrófitas aquáticas, durante todo ou parte do ciclo de vida10,11. A composição do substrato e a disponibilidade de alimento afetam a distribuição desses organismos e de suas comunidades no ambiente aquático12, assim como as características físicoquímicas da água13. A utilização de macroinvertebrados bentônicos possibilita a avaliação desses ecossistemas continentais e apresenta-se como um método eficaz para estudos de impactos ambientais, uma vez que a integridade dessa comunidade de animais está intimamente relacionada a possíveis alterações no habitat quanto à presença de substâncias poluidoras14,15. Portanto, esses animais podem ser empregados como bioindicadores de qualidade de água, permitindo uma avaliação associada aos efeitos ecológicos acarretados por diversas fontes de poluição hídrica16. A viabilidade do uso desses invertebrados em estudos de qualidade ambiental resulta das características dos mesmos, tais como abundância em diversos ecossistemas aquáticos (lênticos e lóticos), pouca ou nenhuma locomoção e presença em amostragens, tanto antes quanto depois de eventos de impactos ambientais17,18,19,20. As modificações ocasionadas na composição natural das populações de macroinvertebrados bentônicos, em relação à dinâmica espacial, vêm sendo empregadas como eficientes instrumentos biológicos em estudos de monitoramento de agentes desencadeadores de poluição hídrica21. Esses estudos adquiriram total relevância ao descreverem os impactos causados nas cadeias tróficas de ambientes aquáticos22. Um estudo analisou a diversidade de macroinvertebrados no período de um ano em pontos do rio Tâmisa, Reino Unido, por meio das estimativas de Biological Monitoring Working Party (BMWP), Average Score per Taxon (ASPT) e índice de diversidade Shannon-Wiener, com o intuito de avaliar os impactos causados a estes organismos pelos fatores de qualidade de água e as modificações físicas do habitat23. Os resultados mostraram que pontos menos modificados abrigaram maiores diversidades de organismos e que a qualidade da água apresentou-se como o fator limitante primário desta diversidade. No Brasil, avaliações utilizando o índice BMWP foram observadas em trabalhos realizados na bacia do rio Doce, Estado de Minas Gerais24; um fragmento de mata atlântica, também no mesmo Estado25 e rio dos Sinos, no Estado do Rio Grande do Sul26, indicando um número ainda escasso e geograficamente restrito de estudos de biomonitoramento de qualidade de água no País. Muitos trabalhos foram realizados em regiões de clima temperado e tropical utilizando macroinvertebrados bentônicos como indicadores de qualidade em ambientes aquáticos continentais27,28,29,30, porém poucos registros são observados para a Região Amazônica, o que gera certa preocupação, visto que muitas das cidades inseridas neste contexto estão intimamente associadas a estes corpos d’água (transporte, lazer e fonte de alimento). Estudos sobre dez anos de descarga de rejeitos de bauxita no lago Batata, localizado no Município de Oriximiná, Estado do Pará, identificaram uma diminuição da densidade de macroinvertebrados bentônicos em pontos do lago, quando comparada aos valores observados para o lago Mussurá, localizado no mesmo Município, não antropizado, levantando questões relacionadas à granulometria do substrato e correlacionando-a com uma maior ou menor diversidade de táxons29. Um estudo realizado durante três anos sobre condições físico-químicas e biológicas em cinco pontos do Igarapé do Mindu, Cidade de Manaus, Estado do Amazonas, identificou uma evidente diminuição da diversidade de macroinvertebrados em áreas de pressão antrópica, caracterizadas por desmatamento de área ciliar, ocupações desordenadas e, consequentemente, elevado fluxo de esgoto doméstico31. O mesmo estudo relata ainda que em pontos de menor urbanização, mesmo com a diminuição da área de mata ciliar, foi possível identificar níveis mais elevados de diversidade de invertebrados. Avaliações das condições de 12 pontos do rio Maroaga localizado em Presidente Figueiredo, Estado do Amazonas, revelaram que o mesmo enquadrava-se na classe I dos índices de BMWP, sendo considerado então como “limpo ou não significativamente alterado”32.
O objetivo deste trabalho foi avaliar as condições de um trecho do rio Ouricuri localizado no Município de Capanema, nordeste paraense, por meio da utilização dos índices BMWP e ASPT.

Autores: Kelves Williames dos Santos Silva; Mauro André Damasceno de Melo e Nafitalino dos Santos Everton.

Leia o estudo completo: Aplicação dos índices biológicos para avaliar a qualidade de água do rio Ouricuri no Município de Capanema, Estado do Pará, Brasil