Microplásticos são partículas de plástico com menos de 5 milímetros. Abaixo de 1 micrômetro, passam a ser chamados de nanoplásticos.
Elas vêm de duas fontes: as que já nascem pequenas, como fibras sintéticas, pellets industriais e microesferas de cosméticos, e as que surgem da fragmentação de sacolas, garrafas, redes de pesca e pneus.
Como o material se espalha com facilidade, ele aparece em praticamente todo lugar onde os pesquisadores procuram. Este ranking reúne os ambientes onde a presença é mais documentada, com atenção ao que isso significa para quem trabalha com água.
Uma ressalva: cada estudo usa um método e uma unidade diferente (partículas por litro, por quilo, por metro quadrado), então não dá para montar uma escala científica rigorosa. A ordem abaixo combina a intensidade da contaminação registrada com a relevância para o tratamento de água.
1º lugar: esgoto e lodo das estações de tratamento
É onde o problema se concentra. Fibras de roupas sintéticas saem na lavagem, e um estudo da Universidade de Plymouth estimou mais de 700 mil fibras liberadas em uma única lavagem de 6 kg de tecido acrílico. Somam-se a isso cosméticos, produtos de limpeza e resíduos urbanos, e o esgoto bruto chega às estações com concentrações que, dependendo da região e do método de análise, vão de dezenas a milhares de partículas por litro.
As ETEs retêm entre 90% e 99% desse material, mas a retenção tem um efeito colateral. As partículas migram para o lodo, e, quando ele é aplicado no solo agrícola, o plástico volta ao ambiente. Além disso, mesmo com eficiência alta, o volume tratado é tão grande que o efluente ainda leva quantidades relevantes para os rios.
2º lugar: rios, lagos e estuários urbanos
Os rios são a principal via de transporte do plástico continental até o mar, e as maiores concentrações aparecem perto de grandes cidades, de áreas industriais e de pontos de lançamento de esgoto. Pesquisas brasileiras já identificaram microplásticos em rios, estuários e reservatórios, inclusive em mananciais que abastecem regiões metropolitanas. Para o setor de saneamento, este é o ponto de partida: o que está no manancial é o que chega à captação.
3º lugar: oceanos, praias e sedimentos marinhos
Uma estimativa de 2023 calculou cerca de 171 trilhões de partículas de plástico flutuando nos oceanos. Nos giros oceânicos, como o da chamada Grande Área de Lixo do Pacífico, que ocupa cerca de 1,6 milhão de km², o plástico se acumula em forma de uma espécie de sopa de fragmentos, e não de uma ilha, como muita gente imagina.
O fundo do mar também guarda muito material. Em uma região do Mar Tirreno, pesquisadores encontraram até 1,9 milhão de fragmentos por metro quadrado de sedimento, criados por correntes de fundo que funcionam como esteiras de acumulação. Nas praias, a areia funciona como reservatório de fragmentos que vêm da superfície e do continente.
4º lugar: água engarrafada
Aqui muita gente se surpreende. Um estudo da Universidade Columbia, publicado em 2024, usou uma técnica de microscopia avançada e encontrou em média cerca de 240 mil partículas de plástico por litro em garrafas de marcas populares, a maioria delas nanoplásticos. Parte vem da própria embalagem e da tampa, e parte do processo de envase.
Os números variam muito conforme a técnica de detecção, já que os métodos antigos não enxergavam partículas tão pequenas. Mesmo assim, o dado derruba a ideia de que água engarrafada seria sinônimo de água livre de contaminação plástica.
5º lugar: água de torneira e mananciais
Um levantamento de 2017 encontrou fibras plásticas em 83% das amostras de água de torneira coletadas em vários países. Esse trabalho recebeu críticas de método, e estudos posteriores, com controles mais rígidos, apontaram concentrações bem menores. A própria Organização Mundial da Saúde publicou em 2019 uma revisão concluindo que, com os dados disponíveis, não havia evidência de risco à saúde nos níveis atuais, mas que a base de conhecimento ainda é limitada.
O tratamento convencional (coagulação, floculação, decantação e filtração) já remove uma parcela grande das partículas maiores. O desafio está nas fibras muito finas e nos nanoplásticos, que exigem processos mais avançados, como ultrafiltração, nanofiltração e osmose reversa.
6º lugar: ar e poeira doméstica
Fibras de roupas, carpetes, cortinas e estofados se soltam o tempo todo e se acumulam na poeira. Dentro de casa, a exposição por inalação e por ingestão de poeira pode ser considerável, e o ar externo também carrega partículas de desgaste de pneus e de fragmentação de plásticos. Essas partículas voltam a se depositar em rios e solos pela chuva, o que fecha o ciclo.
7º lugar: os lugares mais remotos do planeta
Neve do Ártico com milhares de partículas por litro, sedimentos de lagos de altitude, geleiras nos Alpes, trechos próximos ao cume do Everest e crustáceos da Fossa das Marianas, a mais de 10 mil metros de profundidade. Nenhum desses lugares tem fonte local de plástico, e a presença de microplásticos ali mostra o alcance do transporte pelo ar e pelas correntes.
Fora do ranking: o corpo humano
Microplásticos já foram detectados em placenta, sangue e em placas de gordura de artérias. Em 2024, um estudo publicado no New England Journal of Medicine associou a presença dessas partículas nas placas da carótida a maior risco de infarto, AVC e morte, mas associação não é o mesmo que causa comprovada. Os efeitos à saúde ainda estão em investigação, e os pesquisadores pedem cautela tanto contra o alarmismo quanto contra a minimização.
O que isso muda para o tratamento de água
Três pontos resumem o cenário para o setor:
O controle começa na origem. Quanto menos plástico chega ao esgoto e ao manancial, menor a carga a remover, e isso depende de política de resíduos, de filtros em máquinas de lavar e de mudanças na indústria têxtil.
A tecnologia existe, mas tem custo e limites. Membranas alcançam as maiores eficiências, enquanto o tratamento convencional resolve parte do problema. O lodo segue como questão em aberto.
Falta padronização. No Brasil, a Portaria GM/MS nº 888/2021 não traz padrão de potabilidade para microplásticos. Na União Europeia, a Diretiva de Água Potável já incluiu o tema em lista de observação e a Comissão Europeia definiu uma metodologia de medição em 2024. Sem método comparável, não há como estabelecer limites.
Fonte: elaborado por Portal Tratamento de Água com auxílio de IA.

