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Kyoto gerará a segunda Revolução Industrial

As mudanças climáticas são uma realidade brutal, sentenciou o Presidente Jacques Chirac na sua mensagem para a Conferência de Montreal (COP11). A resposta da comunidade internacional foi a de considerar o Protocolo de Kyoto como o instrumento mais adequado para responder a esse desafio iniciado com a Revolução Industrial. Mas será esse o melhor caminho? A previsão da Agência Internacional de Energia (AIE), num cenário que abrange 25 anos até o 2030, é de que o consumo de energia no mundo aumentará pelo menos em 60%. Se isso acontecer, o caminho aberto por Kyoto será absolutamente inútil já que o incremento de emissões será realmente superior. A AIE prognostica que a demanda de energia aumentará em 1,7% ao ano, sendo que para suprir essa necessidade, o consumo de petróleo subirá 1,6%, o gás, 2,3%, o carvão, 1,5% e a nuclear 0,4%. Nesse período, as fontes limpas (hidrelétrica, eólica e solar) crescerão em torno de 6% ao ano. Este rápido cálculo revela que as energias alternativas estarão perdendo a batalha contra os combustíveis fósseis. Neste cenário da AIE os hidrocarbonetos (petróleo, gás e carvão) passarão de 80 para 82% até o ano 2030. Isto significa que o consumo per capita nos países industrializados será de 5,4 toneladas de petróleo por ano, enquanto que os países em desenvolvimento atingirão 1,2 t/ano por pessoa. Como conseqüência , haverá, inexoravelmente, um incremento global de 62% das emissões de dióxido de carbono. Os países industrializados emitirão 11 toneladas de CO2/ano por pessoa e os países pobres somente 2 toneladas. Estas projeções obrigam a todos os países a revisar as metas de Kyoto e implementar políticas públicas agressivas que levem a um efetivo minoramento das graves conseqüências que se anunciam. Além disso, toda mudança de modelos energéticos exige uma etapa de transição, o que leva bastante tempo. Deve-se considerar que fatores imponderáveis, como os culturais, acompanhem essas mudanças. É bom lembrar que nos próximos 25 anos, mais de 2,5 bilhões de pessoas continuarão dependendo da biomassa tradicional (lenha, resíduos florestais, etc.) para se aquecer e cozinhar, e que 1,5 bilhão continuarão ainda sem eletricidade. Por isso, líderes políticos da importância de Bill Clinton, Jacques Chirac, Kofi Annan, Gro Harlem Brundtland, e todos os ecologistas do mundo, sem distinção, lutam por fazer do Protocolo de Kyoto-2 a mais poderosa arma jamais concebida para as lutas ambientais. Kyoto significa não apenas o desenvolvimento de um mercado paralelo de carbono ou um boom para as indústrias de tecnologias limpas significa uma mudança radical no seio da sociedade planetária. Em outras palavras, o Protocolo de Kyoto deverá promover uma segunda Revolução Industrial que modificará obrigatoriamente todos os conceitos que conhecemos hoje. Trata-se de uma revolução cultural na qual ninguém pode ficar do lado de fora. A luta contra os combustíveis fósseis é a luta pela sobrevivência da Humanidade e, somente será ganha se mudarmos radicalmente todos os nossos hábitos. Montreal ao salvar Kyoto deu o primeiro passo. Cabe às nossas cidades, aos nossos bairros, à nossa casa levar adiante essa bandeira.

A ECO•21 deseja a todos que 2006 seja vivido num clima sustentável.
Gaia Viverá!
Lúcia Chayb e René Capriles
Fonte: http://www.eco21.com.br