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Terras Raras o Tesouro que o Brasil Guarda e a Água que Vai Pagar a Conta

Terras raras: o tesouro que o Brasil guarda e a água que vai pagar a conta

Sob o planalto vulcânico de Poços de Caldas e as argilas avermelhadas de Minaçu, o Brasil senta sobre a segunda maior reserva de elementos de terras raras do planeta.

Extrair esse tesouro, porém, é antes de tudo um problema de água — e é aí que engenheiros e gestores do setor de tratamento entram na história.

No planalto de Minaçu, no norte de Goiás, a paisagem não impressiona à primeira vista: morros baixos cobertos por cerrado ralo, terra num tom de ferrugem e um calor seco que domina boa parte do ano. É difícil imaginar que ali, sob os pés de quem caminha, esteja um dos ativos minerais mais disputados do mundo. Desde janeiro de 2024, a Mineração Serra Verde opera a primeira planta de extração de terras raras a partir de argila iônica fora da Ásia — e o que move o processo não é dinamite, é água. Tanques de lixiviação salina banham a argila, dissolvem os elementos de interesse e os conduzem, etapa a etapa, até um concentrado químico pronto para exportação.

A cena se repete, com variações, em Minas Gerais e no sul de Goiás: onde há terra rara no Brasil, há um processo hídrico por trás. E é justamente essa dependência da água — para dissolver, separar, neutralizar e, por fim, devolver ao ambiente — que transforma a corrida brasileira pelas terras raras em uma pauta que interessa diretamente a quem projeta, opera e fiscaliza estações de tratamento.

O que são terras raras

Um grupo de 17 elementos químicos de propriedades semelhantes: os 15 lantanídeos, mais o escândio (Sc) e o ítrio (Y).

Os mais estratégicos para a indústria são neodímio (Nd), praseodímio (Pr), térbio (Tb) e disprósio (Dy) — usados na fabricação de ímãs permanentes para motores elétricos, turbinas eólicas e eletrônicos.

Não são geologicamente raros, mas raramente aparecem em concentrações que compensem a extração — e sua separação exige processos químicos complexos, intensivos em água e reagentes.

A riqueza geológica que o Brasil não usa

Segundo a mais recente edição do Mineral Commodity Summaries, do U.S. Geological Survey, o Brasil ocupa a segunda posição mundial em reservas de terras raras, atrás apenas da China. A Agência Nacional de Mineração, no entanto, revisou essa estimativa para baixo em seu Sumário Mineral, reduzindo o número oficial brasileiro após reavaliar os relatórios de lavra segundo os critérios da Comissão Brasileira de Recursos e Reservas. O paradoxo é conhecido: o país tem uma das maiores riquezas geológicas do planeta e uma das menores participações na produção mundial, concentrada quase inteiramente na etapa de menor valor agregado — o concentrado bruto, exportado sem refino.

Indicador Brasil China
Reservas (USGS, óxidos de terras raras) ~21 milhões t (≈25% do total mundial) ~44 milhões t (≈52% do total mundial)
Reservas revisadas (ANM, Sumário Mineral) 11,4 milhões t
Produção em 2025 ≈2 mil t (≈0,5% da produção mundial) ≈270 mil t (mais de dois terços do total)
Refino de ímãs permanentes sinterizados Participação marginal ≈94% da fabricação mundial (IEA, 2024)
Principais estados/regiões produtoras MG, GO, AM, BA, SE

A única reserva oficialmente reconhecida do país está em Araxá (MG), associada a apatita e calcita em rochas alcalinas. Mas o projeto que efetivamente saiu do papel foi outro: a mina de Minaçu (GO), hoje sob controle de uma empresa americana em uma operação parcialmente financiada pelo Departamento de Guerra dos Estados Unidos — um sinal do peso geopolítico que passou a cercar esse setor. Entre 2026 e 2030, os investimentos projetados em produção de terras raras no Brasil somam US$ 2,4 bilhões, segundo estimativas do setor.

Onde a água entra na equação

Existem, hoje, duas grandes rotas de extração no país. A primeira é a lavra convencional em rocha dura, associada a depósitos de nióbio e titânio, como em Araxá e Tapira. A segunda — e a que mais cresce — é a lixiviação de argila iônica, tecnologia que dispensa a britagem pesada, mas depende inteiramente de soluções químicas para dissolver os elementos presos ao solo. É nessa segunda rota que o risco hídrico se concentra.

O caso mais emblemático está no Planalto Vulcânico de Poços de Caldas (MG), onde dois projetos — Colossus, da Viridis Mineração, e Caldeira, da Meteoric Resources — foram classificados pelo Ministério Público Federal na categoria de maior potencial poluidor prevista na legislação ambiental. Cada empreendimento prevê movimentar e processar quimicamente cerca de 5 milhões de toneladas de argila por ano, usando lixiviação ácida. O MPF recomendou a suspensão da análise de licenciamento dos dois projetos, invocando o princípio da precaução diante do conhecimento ainda limitado sobre os impactos ambientais dessa mineração em escala industrial.

A preocupação central é hídrica: a área é zona de recarga do Aquífero Alcalino de Poços de Caldas, já sob risco de escassez, e o Projeto Colossus prevê a supressão de 98 nascentes. Técnicos do órgão alertam para o risco de rebaixamento do lençol freático pela cava e para a ausência de estudos que descartem a contaminação de águas subterrâneas por nitrato, reagente comum nos processos de lixiviação. Falta, segundo o MPF, avaliação sobre os efeitos de longo prazo da infiltração de água de chuva no solo já lixiviado — e sobre a própria viabilidade de recuperar a vegetação depois.

Há ainda uma camada adicional de risco, específica dos minerais que carregam terras raras: a monazita, mineral-fonte em vários depósitos brasileiros, vem naturalmente associada a tório e urânio. No caso do Projeto Caldeira, a proximidade com a Unidade de Descomissionamento de Caldas, depósito de rejeitos radioativos das Indústrias Nucleares do Brasil, e com duas barragens de rejeito em nível de emergência elevado, ampliou a atenção regulatória sobre a movimentação de argila e a segurança nuclear da região.

Três formas de lixiviar, três perfis de risco

Lixiviação in situ — maior eficiência de recuperação e menor custo operacional, mas exige controle ambiental rigoroso pelo risco de contaminação hidrogeoquímica direta do subsolo.

Lixiviação em pilha — desempenho intermediário: concilia controle operacional e ambiental com custos moderados.

Lavra convencional — maior controle sobre a extração e o processamento, mas com maior movimentação de material e custo mais alto.

Da mina ao efluente: o desafio do tratamento

O ponto de contato mais direto entre terras raras e a engenharia de tratamento de água é a drenagem ácida de mina. Quando sulfetos metálicos presentes no estéril ou no minério se oxidam em contato com oxigênio e água, o resultado é ácido sulfúrico carregando metais dissolvidos — entre eles, elementos de terras raras que passam a figurar como contaminantes no efluente, não como produto de interesse. O tratamento convencional neutraliza essa drenagem com suspensão de cal hidratada, precipitando os contaminantes na fase sólida antes de liberar a água.

Pesquisas conduzidas em universidades brasileiras vêm refinando essa etapa. Um estudo da Universidade Federal de Viçosa testou a imobilização de lantânio por coprecipitação com óxidos sintéticos de ferro e alumínio, variando as proporções molares entre os três elementos para entender que fases mineralógicas se formam e quão estáveis elas permanecem — um trabalho de bancada que tem efeito direto sobre o desenho de estações que vão lidar com efluentes de lixiviação em escala industrial nos próximos anos.

Mais interessante, do ponto de vista de quem projeta tratamento, é a inversão de lógica que pesquisas recentes vêm sugerindo: tratar a drenagem ácida não apenas para descontaminar, mas para recuperar valor. Um estudo da Universidade Federal de Alfenas avaliou a recuperação de urânio e terras raras a partir do próprio resíduo gerado no tratamento de águas ácidas de mina — um precipitado de diuranato de cálcio e hidróxidos metálicos que, submetido a um processo hidrometalúrgico de lixiviação sulfúrica, extração por solvente e precipitação, pode render dezenas de toneladas anuais de óxidos de terras raras a partir de material que, hoje, é tratado apenas como passivo ambiental a ser neutralizado e estocado.

A mesma lógica vem sendo testada em outras frentes de mineração no exterior, com a recuperação de terras raras a partir de água e lodo de drenagem ácida já em processo de despoluição — separando os elementos por via química e devolvendo a água tratada aos cursos próximos. Em escala, essa rota não substitui a mineração convencional, mas reposiciona o profissional de tratamento de água: deixa de ser apenas quem administra o passivo da mineração e passa a ocupar um elo direto na cadeia de valor de um mineral estratégico.

A régua regulatória ainda não fecha a conta

Em 16 de setembro de 2026, foi sancionada a Lei nº 15.506/2026, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. O texto cria um Fundo Garantidor da Atividade Mineral de até R$ 2 bilhões e prevê créditos fiscais que podem somar até R$ 5 bilhões entre 2030 e 2034, voltados a beneficiamento, transformação mineral e mineração urbana — um esforço explícito para que o Brasil deixe de exportar apenas concentrado bruto e passe a agregar valor internamente.

O que a nova política ainda não resolve, segundo observatórios que acompanham o setor, é a lacuna socioambiental: o avanço da mineração de terras raras pressiona territórios quilombolas, assentamentos de reforma agrária e áreas de recarga de nascentes, enquanto os incentivos fiscais ganham corpo sem contrapartidas ambientais igualmente claras. Para o setor de tratamento de água, essa lacuna regulatória é, também, um espaço de atuação técnica: cada estudo de impacto hídrico ausente, cada aquífero sem monitoramento definido, é um ponto em que a engenharia de tratamento pode — e provavelmente vai precisar — entrar antes que o problema chegue à bacia hidrográfica.

O que fica

Voltando a Minaçu: os tanques de lixiviação salina que hoje produzem os primeiros concentrados de terras raras fora da Ásia são, também, um retrato em miniatura do que está por vir em escala muito maior em Poços de Caldas e em outros pontos do país. A riqueza geológica brasileira não vai deixar de atrair investimento — a nova política de minerais críticos garante isso. A pergunta que resta é quem vai desenhar, operar e fiscalizar a água que sai desses processos. Essa resposta, cada vez mais, passa pelas mãos de quem já trabalha com tratamento de água todos os dias.

Fonte: elaborado por Portal Tratamento de Água com auxílio de IA.


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