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17/8/2009 12:10:11
Tão longe da água, tão perto do canal

Publicado por Mariana Toniatti
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O POVO inicia hoje uma série de matérias sobre o uso das águas do Eixão. Funcionando há quatro anos, o trecho I é subutilizado

Mariana Toniatti
Enviada a Região Jaguaribana marianatoniatti@opovo.com.br

A população que mora nas proximidades do Eixão e não tem acesso à água encanada precisa ir até o canal para pegar água e levar para casa em depósitos (Foto: IGOR DE MELO)
A água está logo ali. "Bem pertinho mesmo. Ninguém vê por causa das juremas", diz Maria José Maciel, apontando para os fundos da casa. Ali passa o Eixão das Águas. O canal é como um rio perene. Desde 2005, corre a cerca de cem metros da casa de Mazé. Deveria ter significado uma revolução na vida dela e dos vizinhos do Córrego do Corcundo, nos limites de Morada Nova, mas quase nada mudou. Ainda hoje, dia sim, dia não, Mazé busca água no açudeco em frente de casa. A partir de outubro, o espelho vai secando e a água fica barrenta. "Nesse tempo o que salva é a água do canal", conta a agricultora. Agarrada à corda na beirada de concreto, Mazé estica o braço e enche o balde no Eixão.

O acesso à água ainda é no varejo e rudimentar para praticamente todas as famílias que moram nas margens do canal. O chamado trecho I, com 55 quilômetros de extensão, corta 15 municípios no Médio e Baixo Jaguaribe, mas até agora apenas quatro comunidades foram beneficiadas diretamente com água na torneira. Em todo o Eixão, 48 comunidades estão sem acesso à água. "Somos a única comunidade (em Morada Nova) com adutora porque brigamos. A água chegou em 12 de outubro de 2006", lembra, com orgulho, a universitária Samara Barros, 22, nascida e criada na Linha Base de Baixo. A comunidade possui sistema de distribuição e tratamento de água em 57 moradias.

O abastecimento é frequentemente interrompido porque a bomba é pequena para o volume captado. "A utilização da água ainda é muito deficitária. O abastecimento humano deixa muito a desejar. Existe uma legislação a ser cumprida sobre o canal. Falta vontade política", diz Marx Carrieri Monteiro, presidente do Comitê da Sub-Bacia Hidrográfica do Médio Jaguaribe, um conselho que reúne órgãos públicos e sociedade civil. O Eixão foi construído para garantir o abastecimento da população e da indústria da Região Metropolitana nos próximos 30 anos. Mas também deve garantir o "abastecimento das populações ao longo da área de influência do seu percurso" e "a geração de emprego e renda através da irrigação", como diz o material do Governo do Estado.

Projetos atrasados
Passados quatro anos do início das operações no trecho I, pouca coisa foi feita. De concreto, além das quatro comunidades que recebem água encanada, o Eixão fornece água para o projeto de irrigação Tabuleiro de Russas e se prepara para vender água para a usina da empresa Betânia. No trecho I, oito outorgas foram concedidas. Quatro para irrigação, duas para bebedouros de animais, uma para abastecimento humano e uma para uso industrial. O Governo encomendou um estudo sobre as comunidades que vivem até cinco km do Eixão para ver se é possível levar água encanada até as casas ou se a melhor solução é construir cisternas. Até agora, a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) calcula que das 87 comunidades identificadas ao longo do Eixão, 39 recebam adutoras. Leva-se em conta o custo-benefício da obra. As chamadas populações difusas vivem em núcleos pequenos para o investimento de uma adutora. Em outros casos, a distância entre as casas inviabiliza a construção de uma rede de distribuição.

Mazé continua sonhando com torneiras em casa. "A energia não saiu? Tenho fé que vem a água". O governador Cid Gomes promete. "Nossa determinação é que não fique nenhuma comunidade, nenhuma família sem atendimento. Não é razoável que, tendo um canal com capacidade de transportar 10 m³ por segundo, você, que está ali vizinho, não tenha sua necessidade atendida".


SAIBA MAIS

>O Eixão das Águas terá 256,2 km quando toda a obra estiver concluída. O objetivo é garantir água para a população e a indústria da Grande Fortaleza nos próximos 30 anos.

> O trecho I, que liga o Castanhão à barragem Curral Velho, em Morada Nova, tem 55 km e foi construído no Governo Lúcio Alcântara. Na época, a obra chamava-se Canal da Integração. O trecho é operado pela Cogerh desde 2005.

> O trecho II, com 46,2 km de extensão, parte do açude Curral Velho até a Serra do Félix, em Beberibe. Foi entregue à Cogerh em abril deste ano e está em fase de testes. Custou R$ 264,1 milhões.

> O trecho III, entre a Serra do Félix e o açude Pacajus, tem 66,3 km. Foram investidos cerca de R$ 393,4 milhões. O trecho ainda não está em operação. Os testes devem começar ainda este ano.

> O trecho IV está em obra. Os 88 km restantes devem ficar prontos até 2010, chegando ao Porto do Pecém.

> No início, a vazão do canal será de 11 metros cúbicos por segundo (11 mil litros de água por segundo). Numa segunda fase, a capacidade será dobrará e chegará a 22 metros cúbicos por segundo.

FONTE: Governo do Estado


DICIONÁRIO

>Adutora: canal, galeria ou encanamento que conduz a água de um manancial para um reservatório de onde a água é distribuída para os usuários. Um motor bombeia a água do manancial para a adutora.

> Outorga: autorização para retirar água para a indústria ou grandes irrigações. Nesses casos, paga-se pela água bruta. Os chamados usos significativos, no caso do Eixão, são os que retiram mais de dois metros cúbicos de água por segundo.

> Cisternas: calhas no telhado captam a água e a conduzem até a cisterna. O reservatório vedado impede a evaporação e a contaminação da água.

 

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